Diálogo e Identidade religiosa


Reflexões sobre a base teológica para um encontro positivo entre o Candomblé e o Cristianismo


Candomblé e Cristianismo, religiões presentes amplamente em nosso país, convivem lado a lado já há muitas e muitas décadas. Esta convivência é certamente mais marcada por negatividade, por desconfiança mútua, por desencontros que pela busca de um encontro positivo, de um mútuo conhecimento, reconhecimento, respeito e diálogo. Atitudes de desconfiança, por sinal, não são infelizmente exceções quando observamos os contatos entre pessoas de diferentes crenças religiosas.

Dentro do cristianismo vem-se acentuando já há algumas décadas a necessidade de um diálogo entre os fiéis de diferentes credos. Para o cristão, a passagem de uma atitude para a outra está bastante ligada a uma reflexão teológica sobre a outra religião, ou seja, do ponto de vista de fé do cristão como é possível entender a outra religião. Gostaria de nestas linhas fazer uma reflexão justamente a respeito da base teológica sobre a qual seria possível um encontro positivo entre cristãos e fiéis do Candomblé. Qual é a base que serve de ponto de partida para o cristão entrar em diálogo com o fiel do Candomblé? Esta é a pergunta básica que percorrerá este texto.

Duas afirmações fundamentais devem estar pressupostas nesta busca de diálogo: a) A certeza para o cristão de que a fé no Deus uno e trino deve fornecer a base para um encontro positivo com pessoas de outra fé. Para um diálogo com crentes de outra fé, faz-se necessário por parte do cristão a consciência de que sua identidade de fé não é definida a partir da(s) diferença(s) em relação à fé que o outro professa, ou seja, num diálogo com o Candomblé a identidade do cristão não é definida a partir das diferenças para com a fé do Candomblé, por mais importante que seja ver e acentuar estas diferenças. A identidade da fé cristã está ancorada no seguimento de Jesus Cristo; e que Jesus Cristo na vida dos cristãos não seja uma lembrança do passado mas presença viva, isto devemos à ação do Espírito Santo. A ação do Espírito Santo é no fundo quem possibilita e impulsiona o diálogo dos cristãos com os fiéis de outras religiões. b) Para este diálogo entre cristãos e membros do Candomblé é importante por parte dos cristãos, que o Candomblé seja visto como uma religião e como tal levada a sério; ou seja, que o Candomblé‚ seja visto e definido como Religião dos Orixás e não de forma negativa, como uma "religião não-cristã". Uma definição do outro a partir da negatividade em nada contribui para um diálogo interreligioso.

É preciso também notar que nem todo o encontro entre cristãos e fiéis do Candomblé‚ se dá no âmbito do diálogo interreligioso. O perceber o outro como outro em termos de fé é apenas uma faceta entre as muitas que estão presentes nos encontros entre pessoas. Cristãos e membros do Candomblé‚ como também os membros das outras religiões afro-brasileiras, encontram-se em diversos lugares e situações. Encontram-se como colegas de trabalho, como colegas de escola ou estudos, como vizinhos. Neste encontro o outro aparece em primeiro lugar como colega de trabalho, como colega de escola ou estudos, como vizinho. Este encontro do dia-a-dia entre pessoas de crenças diversas, não é experimentado em primeiro lugar como encontro entre pessoas de diferentes credos, e isto não é uma exclusividade da sociedade brasileira; torna-se cada vez mais algo evidente e corriqueiro em quase todas as sociedades. As experiências colhidas nestes encontros influenciam sem dúvida um diálogo interreligioso e oxalá possa o diálogo interreligioso influenciar positivamente estes encontros cotidianos. Dentro do próprio diálogo interreligioso existem também muitos níveis e profundidades de encontros, tendo todos eles a fé como fator de referência.


1. Deus como mistério: ponto de partida tanto da pluralidade como da unidade

 

Qual é o objetivo do diálogo interreligioso? Deve o diálogo interreligioso ter a unificação das religiões como objetivo, de modo que no decorrer do processo o outro não seja mais outro? Ou em nosso caso concreto, deve o processo de diálogo entre cristãos e membros do Candomblé‚ ter como objetivo a criação de uma só religião a partir das duas? Um processo de diálogo religioso entre cristãos e membros de qualquer outra religião supõe um desenvolvimento dinâmico, cujo decorrer e cujas conseqüências não podem ser fixadas no início do processo. A tarefa do diálogo interreligioso não pode esgotar-se em compreender o outro em sua alteridade religiosa. Querer entender o outro é apenas o primeiro passo - e indispensável - na busca do diálogo interreligioso. É de se alegrar quando o desenvolvimento do diálogo leva a uma mudança positiva no relacionamento entre os parceiros de diálogo. É inclusive de se ambicionar que os membros das diversas religiões envolvidas no diálogo possam aproximar-se através do diálogo e possam inclusive através do diálogo colocar em xeque as próprias posições. Um processo de aclaramento da própria identidade pode ser uma das conseqüências do diálogo interreligioso. O diálogo interreligioso não pode porém ter como objetivo que a partir das religiões participantes se forme uma religião unitária. O caráter único (genuíno) de cada religião deve ser aclarado e preservado no diálogo. Também a criação de uma "teologia universal" não pode ser objetivo do diálogo. A teologia em cada religião é um reflexo de sua genuinidade em si e ela não pode prescindir deste caráter, nem em nome de uma "teologia universal", que pretensamente reuniria o pensamento das religiões envolvidas no diálogo. Uma tal "teologia universal" que pretendesse refletir mais (ou todas as) religiões não teria na verdade nenhuma religião como base e acabaria não sendo ponto de referência para nenhuma delas. Uma teologia para todas as religiões seria uma teologia para religião nenhuma. A multiplicidade de religiões não irá pois desaparecer através do diálogo. Exatamente o contrário parece ser o efeito do diálogo interreligioso: que seja criada uma consciência cada vez mais clara, para os membros das religiões envolvidas no diálogo, da alteridade de cada uma das religiões.

No caso concreto de um diálogo a ser buscado entre cristãos e membros do Candomblé, é desejável que este diálogo tenha como conseqüência uma mudança positiva tanto para cristãos como para os fiéis do Candomblé. Mas não pode ser objetivo do diálogo interreligioso que durante o processo - o que seria então o final do processo - a alteridade religiosa viesse a desaparecer. O objetivo do diálogo com o Candomblé não pode ser, da parte dos cristãos, que este seja integrado no cristianismo ou encampado por este. Para além de todo processo de aprendizagem ou de influência mútua, o diálogo não pode levar à supressão das diferenças, mas sim ao reconhecimento (e aceitação) da alteridade religiosa1. Notar as diferenças para com o Candomblé‚ e as aceitar é um passo importante para os cristãos que entram num processo de diálogo com os membros desta religião. É inclusive uma condição para que o diálogo possa ser desenvolvido. Enfim, o diálogo entre cristãos e membros do Candomblé deve ter como fruto para ambos os lados uma compreensão e tolerância mais profunda para a realidade de pluralidade religiosa em que vive nossa sociedade brasileira.

Como devem pois comportar-se cristãos em uma sociedade onde diversas religiões estão presentes e são praticadas? Que pretensões colocam estas religiões e que pretensão é colocada pelo Cristianismo mesmo? A auto-compreensão e as pretensões do Cristianismo não são postas em questão através destas religiões? As pretensões e a auto-compreensão do Cristianismo parecem ser especialmente postas em xeque quando "outras religiões preenchem aparentemente de forma própria e 'não-cristã' muitas das funções que o cristão via até então realizadas apenas - ou pelo menos de forma insuperável - no Cristianismo"2. A consciência da pluralidade religiosa coloca para o cristão uma série que questões. R. Bernhardt resume estas questões da seguinte forma: Diante da realidade da pluralidade de religiões, "pode a religião cristã reduzir sua pretensão de portadora da verdade de tal forma a aceitar que ela é apenas uma pretensão ao lado de, com ou contra outras pretensões que têm basicamente o mesmo direito? Pode a religião cristã contentar-se com o papel de querer ser apenas um impulso, de fazer uma oferta ou de ser apenas 'uma forma de' verdade que valha somente para seu tempo ou para seu campo de influência; ou tem a religião cristã que anunciar sua mensagem justamente em nossa realidade pluralista como a verdade una, única e válida para todas as pessoas? Como poderá neste caso enfrentar o protesto inevitável de todas aquelas compreensões ou cosmovisões religiosas que têm pretensões de exclusividade não raro comparáveis à sua? Como pode o Cristianismo explicar e classificar o fenômeno da pretensão de verdade fora dele mesmo? Não tiveram os não-cristãos até agora apenas a oportunidade de conhecer a verdade de modo que se faz necessário um anúncio missionário, ou eles persistem de forma pecaminosa no erro ou são - quem sabe - vítimas de condenação divina?"3

Quando os cristãos conseguem aceitar a verdade em outras religiões, não significa isto abrir mão da própria verdade ou da própria identidade religiosa? Ou, não precisa ser rejeitada a pretensão de verdade em outras religiões por parte do Cristianismo para não colocar em dúvida a própria pretensão da verdade?

Como se vê, o diálogo interreligioso coloca os próprios cristãos em questão, antes mesmo de eles entrarem em diálogo com o outro. O que necessita ser procurado pois em primeiro lugar é a própria evidência, a motivação teológica a partir do próprio Cristianismo que leva os cristãos a procurar o contato com os outros e a entrar num processo de diálogo. A pluralidade de religiões não pode ser vista apenas como um fenômeno sociocultural que não pode ser ignorado e que deve ser respeitado como sinal de bondade ou de tolerância esclarecida. O respeito e a compreensão pela pluralidade de religiões não deve para os cristãos estar baseado apenas numa argumentação sociológica ou cultural. Estes devem estar ancorados em uma convicção "teo-lógica", isto é, a partir da fé. É sobre esta convicção teo-lógica, (vale dizer, pertencente à lógica divina) que queremos refletir primeiro.


 

1.1. O discurso sobre Deus como mistério

Na tradição de fé cristã, entre os diversos conceitos que apontam para a realidade de Deus e tentam qualificá-la, encontramos um que nos pode ser muito importante no contexto do diálogo inter-religioso: o conceito de Deus como mistério. Através deste conceito expressa-se que o Deus que se nos revela e dá-se a conhecer aos seres humanos, nunca pode ser compreendido e apreendido em sua totalidade. Esta realidade, à qual apontamos com a palavra Deus, não pertence à categoria de objetos ou conceitos que estão simplesmente um ao lado de outros, que se deixam separar ou diferenciar de outros objetos ou conceitos do mesmo nível ou valor. "As realidades particulares com que lidamos normalmente em nossa vida tornam-se claramente inteligíveis, compreensíveis e manipuláveis porque podemos distingui-las das outras coisas. Esta maneira de conhecer a Deus não existe"4. Deus escapa a todo conteúdo humano (isto é, não se deixa conter) e permanece - apesar de todos os conteúdos e reflexões que a ele possam apontar - sempre um mistério. E assim, mesmo que um conteúdo ou uma reflexão possa apontar a este mistério inalcançável, fica ao mesmo tempo claro que cada conteúdo ou reflexão é insuficiente, é errôneo, pois diferencia, limita, nomeia, dispõe. O que leva porém o humano a querer dizer aquilo que é indizível; a querer nomear o que é sem nome; a pensar que pode dispor sobre o que é indisponível? Todo discurso humano sobre Deus só pode ser entendido como uma resposta humana ao impulso primeiro do próprio Deus. Não é o humano que capta Deus; mais sim o contrário, o humano é por ele apanhado e não permanece mudo perante a iniciativa divina. Somente neste ser-apanhado-por-Deus é que se pode classificar o discurso humano sobre Deus, como uma tentativa de resposta, de re-ação a uma ação primeira. "Deus se autodoa também ao homem; faz-lhe uma proposta de comunhão com Ele, de amor e de união. A essa pro-posta divina o homem tem que dar uma res-posta"5. O discurso humano sobre Deus não é sinal de um a-poder-rar-se de Deus por parte do humano, mas é já um sinal de ter sido por ele apoderado6. "O conceito 'Deus' não é apreensão de Deus pela qual a pessoa domina o mistério, mas um deixar-se apreender por um mistério que sempre está presente e sempre se subtrai. Este mistério permanece mistério, mesmo quando se manifesta ao homem"7. E a res-posta do humano a este mostrar-se divino não pode ser igualada ao primeiro passo - à pro-posta divina8. Permanece sempre um desnível de origem e de princípio: Deus em sua in-apreensão e o humano, que se deixa apreender por Deus9. Por isso toda reflexão sobre Deus, toda tentativa de nomeá-lo, de apontar a ele, não é apenas insuficiente e limitada, mas aponta necessariamente ao ponto de partida: Deus que se revelou ao humano. A experiência de Deus precede pois toda reflexão (resposta) do humano10. A reflexão é condicionada pela experiência e não pode desta prescindir ou substituí-la. As muitas reflexões a respeito de Deus são ao mesmo tempo testemunho de que o humano pode formular, exprimir, codificar de formas múltiplas sua resposta à experiência de Deus. Nenhuma destas formulações pode porém apreender o mistério de Deus, pois todas elas são reflexo do humano que é limitado em sua condição. "Deus-em-si permanece eternamente inalcançável à capacidade de recepção e expressão do espírito humano; o que nós experimentamos são imagens, reais sim, mas não a realidade Deus mesmo. Toda experiência humana de Deus acontece sob a ação conjunta de dois componentes: por um lado o impulso transcendental da experiência vivida do encontro com Deus e por outro lado o trabalho ativo de sistematização pela consciência humana sob a medida de seus modelos de compreensão formados histórica e culturalmente"11.


 

1.2. O discurso sobre Deus como um discurso limitado

Esta compreensão de Deus como permanente mistério ao humano expressa por um lado que Deus tanto em seu ser como em seu agir e revelar-se, apresenta o inapreensível, o ilimitável. Por outro lado esta compreensão de Deus aponta para a realidade de ser do humano: o humano em sua limitabilidade, em seu entendimento com limites, enfim ao humano em sua condição própria deste mundo. E tudo o que depende do humano estará marcado por esta condição. Somente neste desnível radical entre humano e divino é que pode ser pensada a tensão entre revelação e incompreensibilidade divina. A limitação humana faz com que todo discurso sobre Deus seja limitado, com que todo discurso sobre Deus seja um discurso que não pode ter a pretensão de apresentar ou transmitir Deus mesmo em sua totalidade. No discurso sobre Deus, uma coisa é certa: o discurso é discurso e não pode ser confundido com aquilo para o qual ele pretende apontar. Todo discurso teológico deveria ter clareza a este respeito. A consciência a respeito desta limitação humana é de certa forma uma superação desta amarra, sem porém nunca poder sair do nível de limitação. Este "superar-se a si mesmo" oferece no entanto a possibilidade de manter uma abertura para o mistério. E este ‘nunca poder sair do nível de limitação’ nos lembra constantemente que "o discurso teológico tem de manter-se por princípio aberto ao fato de que a realidadede Deus sempre só podeser nomeada fragmentariamente, podendo, por isso, ser expressa em mais de um modelo, com a ajuda de várias analogias e metáforas centrais"12.

E também a Igreja - mesmo quando se considera que ela não é apenas uma realidade mundana - está ligada de muitas formas ao humano e é marcada pelo ser humano neste mundo, de modo que ela também participa da mesma limitação humana perante a ilimitabilidade divina. Também para a Igreja, Deus permanece finalmente um mistério que não pode ser acolhido, nem compreendido em sua totalidade. E no fundo o próprio Cristianismo - em sua compreensão de Deus como mistério - também deve ter presente sua limitação a este respeito. Se assim não fosse, que o Cristianismo seja entendido em sua situação de limitação, haveria uma igualdade entre Cristianismo e realização escatológica.

O Cristianismo como religião apresenta por um lado uma consciência permanente e eficaz da revelação de Deus neste mundo, que na encarnação de seu Filho mostrou-se à humanidade da forma compreensível mais suprema. A revelação divina à humanidade não poderia conhecer uma densidade mais clara que esta. Por outro lado o Cristianismo como religião - e neste sentido toda religião - apresenta uma consciência permanente de que a revelação divina é apreendida pelo humano. Esta apreensão ocorre na condição que é própria do humano, a condição da limitabilidade. Este fator mostra claramente que há uma diferença entre o divino e sua imagem terrena, limitada e deficiente. O fato de que todas as religiões são impregnadas pela condição humana, mostra que também elas não podem sair do nível da limitação humana. A consciência da limitação de todo discurso teológico diante da incompreensibilidade do mistério mesmo "proíbe toda religião de requerer para si a prerrogativa de ser a 'única' e última' palavra" (P. Knitter)13. Esta "absolutidade convém única e somente a Deus mesmo"14. Toda palavra dita a respeito de Deus pode ser tida como correta à medida que ela aponta para o indizível. Porém "nenhuma religião tem toda a verdade, toda a verdade só a tem Deus mesmo" (H. Küng)15.


 

1.3. O reconhecimento da alteridade religiosa

Esta compreensão cristã de Deus traz para o diálogo religioso a grande chance de avaliar a própria compreensão de fé de forma tranqüila e crítica. Isto não é nenhuma desvalorização do próprio caminho, mas sim a consciência que este caminho de fé é perpassado pela condição humana. A fé cristã, que toma forma num caminho concreto de vida, é uma res-posta à experiência transcendental. Esta resposta acontece através de pessoas concretas, que percorrem um caminho igualmente concreto. Esta concretude é influenciada e determinada pelas condições históricas, culturais, contextuais. A consciência da própria ligação com a história leva por um lado a um questionamento permanente da própria compreensão de Deus, garantindo assim a possibilidade de abertura para a ação de Deus. Por outro lado esta consciência leva igualmente a uma posição crítica perante a compreensão apresentada pelo outro16.

A consciência de que Deus é um mistério e que a percepção humana de Deus inclui sempre uma limitação, abre para os cristãos uma nova perspectiva no diálogo das religiões. Ela forma uma ponte para o diálogo, que é muito mais profunda que uma simples tolerância religiosa baseada no respeito e compreensão humanos para com o outro. O respeito à liberdade humana no que tange à resposta religiosa ao primeiro passo dado por Deus em direção ao humano é um aspecto que leva à compreensão da pluralidade religiosa e por isso mesmo um aspecto fundante para o diálogo interreligioso. Um outro aspecto teologicamente relevante é "a insondável liberdade divina em sua relação com os seres humanos"17. Tendo em vista esta liberdade divina insondável, todas as respostas humanas precisam ser relativizadas.

A possibilidade de pluralidade religiosa não contradiz pois nossa compreensão cristã de Deus. Pelo contrário, abre justamente uma perspectiva para perceber e experimentar Deus como mistério, cujas possibilidades não se limitam à nossa compreensão limitada e à nossa capacidade de compreensão e nem à nossa resposta histórica. A pluralidade de religiões pode ser inclusive compreendida como conseqüência da liberdade humana e da diversidade do ser humano na busca de uma resposta ao impulso divino, como expressão da limitação humana diante do Deus insondável e sua liberdade no relacionamento para com os seres humanos. Visto desta forma, a pluralidade de religiões não é nenhum fenômeno passageiro que deve ser superado, que deve desembocar necessariamente numa religião única. "Pelo contrário, cada vez mais espalha-se a impressão de que uma unidade tanto intra-cristã como interreligiosa só é possível na diversidade, ou seja, que a pluralidade irá permanecer como estrutura constante da história das religiões"18.

A partir do exposto não se pode concluir porém que os cristãos aceitam imediatamente como revelação divina todas as religiões e seus conteúdos de fé. Mas a rejeição total da possibilidade de pluralidade religiosa traz consigo o perigo de um fechamento diante do mistério de Deus mesmo.

Aceitar a alteridade religiosa não é nenhuma traição à própria identidade, mas um convite a manter a unidade da própria fé em meio à diversidade e a relativizar as próprias posições tendo em vista o mistério divino. A partir deste ponto de vista, uma posição de diálogo não é apenas uma solução de emergência diante de uma pluralidade de religiões que já é de qualquer forma uma realidade em muitas sociedades. Também não é uma forma de minar o envio missionário cristão. É uma posição que está baseada na própria compreensão de fé cristã. Negar por princípio a diversidade religiosa seria não levar a sério a própria compreensão de Deus. Uma posição de diálogo é pois uma abertura para o outro e um constante apontar para a própria posição.

Um encontro com o Candomblé‚ oferece aos cristãos do Brasil a chance de se dar uma forma concreta à abertura para a alteridade religiosa como uma resposta baseada na própria fé.


 

2. A autonomia do Candomblé‚


 

2.1. Um acesso positivo ao outro

Aceitar a alteridade religiosa baseando-se na própria compreensão de Deus é a melhor precondição para o diálogo interreligioso. É em si a ponte para o outro. A fé do outro é antes de tudo classificada como uma resposta dada com liberdade e a ser pensada como uma resposta à experiência de Deus. "É um capítulo dentre os mais importantes da doutrina católica, contido na palavra de Deus e constantemente pregado pelos Padres, que o homem deve responder a Deus, crendo por livre vontade. Por conseguinte, que ninguém deve ser forçado contra a sua vontade a abraçar a fé"19. O reconhecimento da alteridade não se torna daí uma alternativa que leva à pergunta ‘ou isso ou aquilo’. A possibilidade da alteridade como resposta de fé pode ser entendida e classificada no horizonte de fé cristão, sem ser já a princípio sentida como contradição. Com isso o acesso ao outro torna-se um acesso positivo.

Diante das assim chamadas religiões universais (Judaísmo, Islamismo, Budismo e as religiões hinduistas) este acesso positivo por parte da Igreja Católica foi apoiado claramente através da declaração "Nostra aetate" do Vaticano II. E desde esta declaração, muitos passos de diálogo já aconteceram. Hoje nenhum católico mais se assusta ao observar encontros de diálogo e de colaboração entre cristãos e muçulmanos, cristãos e judeus, cristãos e budistas ou cristãos e hinduístas. A possibilidade de encontro e diálogo já pertence à evidência, embora não seja praticada nem apoiada por todos. Um trabalho inicial de diálogo porém já foi feito, de modo que uma certa barreira de inibição já foi quebrada.

A situação porém é bem outra diante das religiões originárias da África negra ou que tem suas raízes no continente americano. A barreira de inibição claramente ainda não foi aqui quebrada. Existem muito menos iniciativas de diálogo cristão com estas religiões. Estas religiões são muitas vezes também tratadas como um grupo, de modo que a especificidade de cada uma aparece desbotada. Assim é comum que se fale das religiões afro-brasileiras, das religiões afro-americanas, das religiões banto, das religiões sudanesas, das religiões indígenas e assim por diante. Estas religiões não aparecem em suas propriedades e autonomias, mas como parte de um difuso conglomerado religioso. Por isso para o diálogo com o Candomblé‚ é importante vê-lo como uma religião autônoma e ver a opção religiosa dos membros do Candomblé‚ como uma opção de fé, isto é, como uma possível resposta do humano à iniciativa divina. Esta resposta não pode ser pensada em um primeiro momento como uma doutrina ou uma reflexão teológica, mas como uma praxis, que é uma reação ao toque primeiro divino. Este deixar-se-tocar e dar-uma-resposta ao toque divino manifesta-se de alguma forma no estilo de vida destas pessoas. Esta prática religiosa do Candomblé‚ é que deve ser levada a sério como uma resposta destas pessoas à iniciativa divina.


 

2.2. O perceber o Candomblé e levá-lo a sério como religião

Para um esforço de diálogo por parte dos cristãos com os membros do Candomblé‚ faz-se necessário que o Candomblé apareça em seu ser-sujeito. Antes e independente de qualquer escala de valores dos conteúdos de fé do Candomblé‚ este precisa ser percebido como Candomblé‚ isto é, uma religião em sua autonomia. O ponto de partida para um encontro é a percepção do Candomblé‚ em sua reivindicação de ser visto como religião20. Esta reivindicação é em si direito de toda e qualquer religião, o direito de ser entendida como religião e o direito de acentuar o seu "ser sujeito". Toda religião está convencida de sua corretidade (de ser correta) e deste convencimento é que parte a fé. Por isso "toda e qualquer mensagem religiosa apresenta-se às pessoas com a reivindicação de ser digna de fé"21. Quando fiéis de diferentes religiões se encontram e pretendem entrar em diálogo como parceiros com os mesmos direitos, não há inicialmente outra alternativa que a de deixar as duas reivindicações uma ao lado da outra. E cada lado deve tomar conhecimento e ter presente a reivindicação do outro. Quando no diálogo a auto-compreensão não é levada a sério pelo outro, o diálogo pode ser interrompido antes mesmo que tenha sido começado. ‘Levar a sério’ não significa aqui reconhecer a compreensão do outro como verdade para si próprio ou estar de acordo com o conteúdo de fé do outro ou então não poder colocar em dúvida a reivindicação ou o conteúdo de fé do outro. ‘Levar a sério’ significa aqui estar consciente de que a reivindicação de verdade do outro precisa ser classificada em princípio como sendo do mesmo nível que a própria reivindicação. "É necessário que seja um encontro onde o outro seja reconhecido em seu ser sujeito, em sua identidade cultural e religiosa, em seu contexto"22. A escolha que o outro fez como resposta de fé - independente dos fatores que levaram a esta escolha - é uma outra escolha que a minha e isto precisa ser percebido. A conseqüência desta escolha é um caminho de vida concreto. A pergunta se esta resposta de fé ou se este caminho concreto de vida do outro tem algo em comum com o meu caminho, com a minha resposta, esta pergunta não deve ser colocada em primeiro plano. Colocar a pergunta por semelhanças em primeiro plano pode levar à situação de que só se procure e se veja a si mesmo no outro. Depois que o outro tenha sido percebido em seu ‘ser sujeito’ então sim podem (e devem) ser colocadas em questão as reivindicações de ambas as partes. Este ‘colocar em questão’ não pode inclusive ser reprimido no diálogo, pois esta repressão em nome de uma pretensa paz iria a longo prazo minar o diálogo. Este ‘colocar em questão’ precisa porém voltar sempre ao seu ponto de partida: o levar a sério a decisão do outro em sua autonomia como resposta de fé.

O fiel do Candomblé está convencido da corretidade de sua fé e sua prática religiosa no Candomblé tem por base esta fé. Quando um cristão, a partir deste nível de compreensão, encontra-se com um fiel do Candomblé, ele encontra no fundo alguém que a partir do mesmo motivo (a fé) está convencido da mesma coisa (da corretidade) e a partir deste convencimento tomou uma decisão, que para o cristão levou à decisão do seguimento de Jesus Cristo. De certo modo pode-se dizer que ele reivindica no fundo a mesma coisa que o cristão, baseado porém em outro conteúdo de fé. E como em afirmações de fé não se trata de verdades empíricas, isto é, de verdades coisificadas, que possam ser testadas empiricamente, as duas afirmações ou reivindicações de fé encontram-se em princípio no mesmo nível. No fundo encontram-se frente a frente fé com fé, convencimento com convencimento, reivindicação de corretidade com reivindicação de corretidade.

Admitir esta possibilidade, que o outro pode rogar-se no direito de fazer uma mesma reivindicação de verdade de fé que a minha para uma outra religião (um outro conteúdo de fé), aparece para o cristão primeiramente por um lado como um colocar em dúvida a própria convicção de fé cristã. Por outro lado é também verdade que o cristão somente à base de sua própria convicção está em condições de classificar e de entender a profundidade e a importância de uma tal reivindicação. E a expectativa é que somente aqueles que levantam uma tal reivindicação em sua religião estão em condições de compreender e levar a sério a reivindicação cristã. O levar a sério e perceber o Candomblé como religião por parte dos cristãos supõe num diálogo que ao mesmo tempo a reivindicação do Cristianismo seja levada a sério e compreendida por parte dos fiéis do Candomblé.


 

2.3. A superação da atitude de concorrência: a in- e a ex-clusão

A atitude diante da reivindicação religiosa do outro pode ser uma atitude de concorrência (a fé do outro é um concorrente da minha fé). Esta atitude marcou e marca amplamente o encontro entre fiéis de diferentes religiões: o sentimento de concorrência. A reivindicação do outro ou não é percebida (não levada a sério) ou é simplesmente negada (tida como não-verdadeira). É o encontro através da negação do outro: o concorrente é sentido como ameaça que precisa ser eliminada.

Uma tentativa de encontrar o outro de forma positiva, conservando porém a atitude ou sentimento de concorrência, levou a uma lógica da in- ou da ex-clusão no encontro. Segundo esta lógica o encontro positivo só pode ocorrer a partir de uma base comum aos dois lados, ou seja, sobre uma base, que por ser comum, elimina automaticamente o sentimento da concorrência. Quem se encontra sobre uma base comum, pode ser encontrado de forma positiva (in-clusão). Quem não se encontra sobre uma base comum, não pode ser encontrado de forma positiva (ex-clusão). A partir desta lógica a base comum foi sendo cada vez mais ampliada com o objetivo de diminuir constantemente a ex-clusão.

Vejamos como isto ocorreu. Primeiro a Igreja Católica foi vista como a base comum para o encontro ("Extra ecclesiam nulla salus"). O encontro religioso só poderia acontecer entre aqueles que tinham a Igreja Católica como base comum. A partir deste eclesiocentrismo partiu-se para uma base mais ampla de encontro: o encontro tendo como base comum aqueles que seguem Jesus Cristo (cristocentrismo). Todos os que seguiam Jesus Cristo poderiam ser encontrados de forma positiva. Sempre à procura de um denominador comum mais amplo que pudesse diminuir o número de ex-cluídos e aumentar o número de in-cluídos num encontro positivo, abandonou-se o círculo cristocêntrico para se assumir o círculo teocêntrico como base comum de encontro. Já era um círculo bem mais amplo. Todos os que crêem em Deus poderiam ser ‘incluídos’. Mesmo esta base comum da fé em um Deus acabava por excluir o Budismo que é não-teísta. A salvação foi então trazida a campo como lugar comum sobre o qual o encontro positivo das religiões poderia acontecer (soteriocentrismo).

Qual será o próximo círculo a ser procurado nesta lógica que, na busca de uma base comum, amplia-se cada vez mais para fugir da ex-clusão e aumentar a in-clusão? A religião como caminho de vida? Como experiência do transcendente? Esta lógica da in- e da ex-clusão parece ser cada vez mais ampliável. A lógica deste caminho leva cada vez novamente a um beco-sem-saída, que é superado através de uma ampliação. Surge então um movimento dum ceder constantemente - em favor da in-clusão - quando as partes envolvidas estão interessadas em buscar uma base comum mais ampla de encontro, ou um frear constantemente - em favor da ex-clusão - quando uma das partes ‘finca pé’ em sua posição.

Esta lógica conduz a duas alternativas: ou se permite que a própria identidade seja cada vez mais desbotada em nome de um círculo cada vez mais amplo de inclusão ou acontece um entrincheirar-se atrás da própria posição admitindo uma atitude excludente. Esta lógica corre o perigo de levar à descaracterização da própria identidade tanto para si mesmo como frente ao outro23. Em segundo lugar há o perigo de que na busca de uma base comum para o diálogo religioso, cada um veja sempre apenas a si mesmo e não o outro em sua alteridade. Além do mais, o diálogo interreligioso ocorre sobre uma base teocêntrica ou soteriocêntrica, isto não significa de modo algum que ‘Deus’ ou ‘salvação’ sejam uma base comum. Como cada uma das partes entende este conceito ‘Deus’? Como se pensa ‘salvação’? Um conceito ou uma palavra comum não garante sozinho uma base comum de compreensão e a probabilidade é ainda maior de que cada uma das partes veja e leve em consideração apenas a sua compreensão própria.

Para um relacionamento entre cristãos e fiéis do Candomblé‚ é pelo menos de se duvidar que palavras comuns como ‘Deus’ ou ‘salvação’ sejam adequadas para formar uma base comum de diálogo, pois o conteúdo para o qual estas palavras apontam nas duas religiões estão muito distantes um do outro. Esta lógica da in- e da ex-clusão não é a meu ver adequada para servir de modelo num relacionamento de diálogo entre Candomblé e Cristianismo. É questionável inclusive se é possível desenvolver um modelo de diálogo a ser aplicado sempre no relacionamento dialogal entre o Cristianismo e uma outra religião ou se não seria mais razoável deixar com que o modelo de diálogo seja definido sempre pela dinâmica do próprio relacionamento de diálogo com a determinada religião. A procura de um ‘ponto universal’ no qual todas as religiões possam se encontrar não coloca apenas a questão sobre qual seria este ponto, mas também a questão sobre até que ponto cada uma das religiões pode se identificar (reconhecer sua identidade) neste ‘ponto universal’ e até que ponto este lugar de encontro universal não representaria apenas uma faceta de cada religião, arrancada de seu contexto religioso e por isso mesmo não representativa.


 

2.4. A autonomia como acesso mútuo

A pergunta, se a lógica da in- e ex-clusão é a única que pode levar a um encontro positivo entre as religiões que desemboque num processo de diálogo, é de se responder negativamente. Não seria uma lógica que tivesse por princípio a autonomia de cada religião - independente da existência ou não de pontos em comum - uma possibilidade de sair deste impasse gerado pela lógica da in- e ex-clusão? O reconhecimento da autonomia das religiões parte do princípio que cada religião encontra-se no direito de entender-se como absoluta, isto é, no sentido filosófico de ‘ser por si mesmo’. O ponto de partida para o encontro das religiões seria cada vez pois a própria identidade. Cada um é então sujeito no encontro e justamente por ser sujeito, cada qual tem condições de encontrar o outro como sujeito. A totalidade dos recursos próprios formam então a base do diálogo. Num diálogo nesta base está afastado o perigo de que a busca de um denominador comum venha desbotar a própria identidade, ou de que as religiões através da busca deste ponto comum vejam sempre somente a si mesmas ou que as religiões envolvidas num processo de diálogo baseado num denominador comum não mais identifiquem a sua religião neste denominador comum. Tomando a própria identidade como ponto de partida ao diálogo não se está apoiando um isolamento de cada religião perante a outra. Sempre haverá pontos em comum ou enriquecimento mútuo. O diálogo porém não se fará depender disto, mas sim da capacidade de diálogo dos parceiros baseados respectivamente na própria identidade.

Aplicando-se este princípio em relação ao Candomblé, significa que o cristão que pretende entrar em diálogo com os fiéis do Candomblé‚ não deve estar em primeiro lugar preocupado com pontos comuns que possibilitem o diálogo, mas sim que o cristão, baseado em sua decisão pelo seguimento de Jesus Cristo, deverá procurar encontrar e dialogar com os fiéis do Candomblé na fidelidade deles para com os Orixás. Justamente aquilo que faz a identidade do ser cristão diferente da identidade do fiel do Candomblé não é algo que - como à primeira vista pode parecer - necessariamente distancia ambos, mas sim a possibilidade de encontrar o outro como sujeito autônomo. E o cristão pode tentar entrar em diálogo com o fiel do Candomblé, quando ele entende sua identidade de discípulo de Jesus Cristo como absoluta. Absoluto não deve ser entendido aqui como perfeita, como não mais passível de desenvolvimento, mas sim como independente e para o cristão como imprescindível.


 

2.5. O Candomblé: a religião dos Orixás

Neste encontro o Candomblé aparece ao cristão em primeiro lugar não como uma religião que tem algo em comum com o Cristianismo ou - como muitas vezes se pretende insinuar - como uma religião que em parte já foi cristianizada. Num encontro entre cristãos e fiéis do Candomblé, que tenha como base a própria identidade religiosa, o Candomblé aparece não como uma religião não-cristã, mas sim como o que realmente é: a Religião dos Orixás. Uma religião precisa ser definida positivamente a partir daquilo que a compõe e não a partir daquilo que ela não é. O cristão também não iria se reconhecer numa definição de não-muçulmano ou não-budista.

O objetivo de um tal encontro não é em primeiro lugar fazer comparações religiosas ou teológicas. Estas podem até surgir no decorrer do processo. Também não é objetivo do encontro aplainar as diferenças. A alteridade precisa ser preservada no diálogo, para que identidade própria de cada religião seja confirmada e não haja a constante suspeita do espírito de concorrência. No caso de um diálogo religioso entre cristãos e membros do Candomblé, já será um grande passo se o processo de diálogo levar a destruir os preconceitos mútuos, se o processo de diálogo levar a uma conscientização sobre o papel histórico desempenhado por estas duas religiões no Brasil, se tanto cristãos como membros do Candomblé através do diálogo tornarem-se mais conscientes de sua identidade religiosa.


 

3. Cristão: a identidade no seguimento de Jesus Cristo


 

3.1. A identidade própria como ponto de partida para o encontro interreligioso

Duas características essenciais para o diálogo interreligioso são: a capacidade de dialogar e a firmeza na própria identidade. Com isso fica clara a tensão que acompanha o processo de diálogo interreligioso: por um lado a abertura para ao outro, a percepção e o reconhecimento de sua autonomia de forma tão decidida que não haja um encampamento teológico do outro. Para o diálogo entre Cristianismo e Candomblé isto significa para o cristão ter sempre claro que o Candomblé é outra religião, ou seja, a Religião dos Orixás. Uma tal abertura radical, claro, traz consigo o perigo de que a própria identidade entre em crise. Este é porém o preço de uma tal abertura. Do outro lado da tensão do diálogo interreligioso está a firmeza na própria posição, ou seja, que o cristão nunca perca de vista no diálogo onde está a sua identidade própria. Neste sentido faz parte do diálogo uma atitude ‘conservadora’, no sentido tanto da consciência da necessidade de conservar a própria identidade no processo de estar aberto para o outro, como também de ter a capacidade de distinguir-se do outro. Para o cristão, o ponto fixo que ele deve conservar no diálogo com os membros do Candomblé e para o qual ele sempre deve voltar como sua referência, chama-se Jesus Cristo. Apesar da consciência da própria perspectividade, da não-absolutidade do próprio ponto de vista e da tentativa de estar sempre aberto para que o outro apareça em seu ser sujeito, Jesus Cristo permanece para o cristão o ponto imprescindível, o critério decisivo de diferenciação, donde o cristão busca sua identidade e a tem ancorada. O próprio (própria identidade) torna-se próprio não à medida que se diferencia ou se separa do outro, mas à medida em que professa o seu próprio. O cristão não se torna cristão no diálogo com o Candomblé à medida em que ele se diferencia deste, mas à medida em que ele permanece no seguimento de Jesus Cristo. A fé em Jesus Cristo é o ponto de partida do diálogo para o cristão, ou seja, ele não entra em diálogo como alguém de fora, que vê as duas partes de igual forma. Ele entra em diálogo como crente e como tal ele não pode e não deve assumir as posições das duas partes.

Existe uma religião verdadeira? Esta pergunta precisa ser colocara a partir de um crente. E a partir de um crente esta pergunta sempre será respondida com um ‘Sim’. E em se tratando de crentes de diferentes religiões, este sim sempre irá se referir a uma outra religião. No fundo esta pergunta não pode ser colocada, nem entendida, a não ser a partir dum contexto de fé. E num contexto de fé, cada fiel irá respondê-la dentro de sua fé. Por isso para o cristão é claro que fé sempre tem como referência Jesus Cristo.


 

3.2. Ser cristão é seguir Jesus Cristo

Onde pode ser reconhecida a identidade religiosa cristã que serve como ponto de partida para o encontro com outras identidades religiosas? O essencial da identidade cristã, aquilo que a define, a conditio sine qua non de sua existência é o seguimento concreto de Jesus Cristo. Alguém define-se como cristão à medida que Jesus Cristo torna-se para ele pessoalmente caminho, verdade e vida. Esta é por assim dizer a certidão do ser cristão. "Ser cristão é ser em Cristo, fazer Cristo seu princípio de vida, viver sua vida a partir de Cristo e para Cristo"24. Dois elementos essenciais estão contidos nesta definição: primeiro um encontro pessoal com Jesus Cristo, e com Jesus Cristo dos evangelhos, com o filho de Deus encarnado, que anunciou a boa-nova do Reino de Deus, que foi crucificado, morto e ressuscitado. Este encontro pessoal com Jesus Cristo - no sentido de ser tocado por ele em sua vida - é sempre único e não-deduzível. Em segundo lugar este encontro pessoal com Jesus Cristo precisa ter conseqüências. Ninguém que é tocado por Jesus Cristo permanece como antes era. A partir do encontro nasce um relacionamento de amor a Jesus Cristo, que leva aquele ou aquela a orientar sua vida a partir da ação e da pessoa de Jesus Cristo. Ou dito de outra forma, todo encontro com Jesus Cristo leva a uma praxis. E nesta praxis, a vida de Jesus Cristo mesmo, sua praxis torna-se orientação para o cristão. Este dois elementos básicos - o ser-tocado e o deixar-se-tocar - não acontecem separadamente. No seguimento acontece o ser tocado e somente neste encontro é que o cristão pode dizer quem é Jesus Cristo para ele. O ser-cristão não é pois definido a partir da pergunta ‘quem é (ou era) Jesus Cristo?’, mas sim a partir da pergunta ‘quem é Jesus Cristo na vida pessoal de fé do cristão?’. A prática de fé concreta no seguimento de Jesus Cristo é ‘a norma suprema da existência cristã’25. Com isso se pretende acentuar tanto que Jesus Cristo não é um passado ou uma lembrança, mas presença na vida de cada cristão, como que o ser-cristão não é definido a partir do conhecimento ou da sabedoria de cada um a respeito da pessoa de Jesus Cristo. O encontro com Jesus Cristo não é para o cristão deduzido de uma idéia ou de uma pesquisa. Tudo isso pode ajudar o cristão a entender melhor sua identidade, a conscientizar-se melhor de sua tarefa no seguimento. Mas não pode substituir o encontro pessoal com Jesus Cristo e o seguimento que daí deriva. Neste relacionamento com Jesus Cristo fica claro tanto a infinitude divina, como a limitação da concreção do ser humano. O seguimento de Jesus aponta para o mistério de Deus; ele acontece porém na situação concreta de vida de cada um. Cada um porém não se encontra só neste caminho de seguimento, mas sim envolvido numa caminhada da comunidade dos crentes. E entender o seguimento de Jesus Cristo cada vez como uma atitude pessoal, que se concretiza porém numa comunidade de fé, protege contra o absolutismo do indivíduo e contra a ideologização da fé


 

3.3. Encontrar o outro de forma cristã

A identidade cristã deve levar necessariamente o cristão a portar-se cristãmente no encontro com fiéis de outras religiões. Este ‘cristãmente’ deve ser entendido em duplo sentido: primeiro como conseqüência do seguimento de Jesus Cristo mesmo. O seguimento exige abertura, acolhimento do outro, seguindo o exemplo do próprio Jesus que não rejeitou ninguém que veio a ter com ele, que soube dedicar-se a todos, soube encher-se de amor para os que o procuraram. O ser-em-Cristo exige do cristão esta mesma atitude de Jesus para com todas as pessoas; igualmente para com aquelas que professam outra fé A partir da mensagem de Cristo, o cristão não pode encontrar o outro com outra atitude que não seja a de amor; caso contrário ele trai Jesus e sua mensagem, trai aquilo que para ele deveria ser caminho, verdade e vida. A abertura para com os fiéis de outra fé e a exigência de uma atitude de amor para com eles é uma exigência do ser cristão, uma exigência que brota a partir da própria fé. Esta exigência permanece válida mesmo quando a história do encontro de cristãos com fiéis de outras religiões não testemunhe a seu favor.

Em segundo lugar, o cristão não pode deixar de encontrar o outro a não ser cristãmente, se ele levar a sério a própria fé. A identidade cristã é tanto o ponto de partida para o diálogo com outra religião, como aquilo que o cristão leva consigo ao entrar neste diálogo. Sem sua identidade, isto é, sem a fé de que para ele Cristo é caminho, verdade e vida, o cristão é no diálogo um observador, um perito, um intermediário, um curioso ou qualquer outra coisa - mas não um cristão.


 

3.4. A chance da crítica

A abertura cristã para o diálogo e o levar a própria identidade para o diálogo têm como conseqüência inevitável, que tanto o cristão questione a identidade religiosa do outro, como sua identidade religiosa é pelo outro questionada. Exercer a crítica e ser criticado pertence ao processo de diálogo. Tanta abertura e segurança própria o cristão deve ter e suportar no diálogo.

O cristão deve utilizar positivamente a possibilidade de ser colocado em questão pela identidade religiosa do outro, mesmo que isto provoque uma crise de identidade. Crise é chance de purificação, de esclarecimento para si mesmo. O diálogo do cristão com uma outra religião concreta pode levar tanto a um enriquecimento de sua identidade através do outro como também à possibilidade de purificação através do confronto com o outro, do levar a sério a crítica que é feita pela posição do outro. É possível que uma voz vinda de fora possa levar os cristãos a acordar, a encontrar melhor sua identidade, a melhor praticá-la naqueles pontos onde ela já adormeceu como conseqüência duma auto-glorificação e duma falsa segurança. Ou uma voz vinda de fora pode dar ao cristão um impulso para entender Jesus Cristo de forma mais atual e local na situação concreta onde os cristãos vivem e assim preparar o caminho para uma renovação no seguimento. A crítica através do outro pode levar a superar a atitude de auto-glorificação e a admitir sinceramente que o cristão ainda encontra-se a caminho tanto no que diz respeito à compreensão de sua própria identidade, como no que diz respeito ao processo de seguimento mesmo26. Com isso os cristãos deixariam o lugar da realização livre para quem verdadeiramente o deve ocupar: o espírito de Deus e sua ação.


 

4. O acesso pneumatológico ao diálogo interreligioso


 

Como pode ser dito que o cristão precisa encontrar Jesus Cristo pessoalmente e que a partir deste encontro deve nascer um relacionamento de amor, para que o cristão possa haurir daí sua identidade? Como Jesus torna-se mais que um fato histórico que permanece para sempre no passado? Como se pode encontrá-lo hoje e como ele pode ser hoje aos cristãos caminho, verdade e vida? Paulo dá a resposta: "E ninguém pode dizer 'Jesus é o Senhor' senão no Espírito Santo" (1Cor 12,3b). Através do Espírito, que é do Pai e do Filho e é Espírito Santo, pode Jesus ser encontrado. É através da ação do Espírito que acontece para o humano o ser-tocado por Deus, somente a partir da ação do Espírito é que torna-se possível uma resposta de fé. Através da ação do Espírito é que Jesus Cristo e sua mensagem ganham atualidade. "É o Espírito que não deixa a mensagem evangélica permanecer no 'naquele tempo' e a leva a mostrar novas possibilidades no nosso tempo de significação humana e divina"27. O encontro com Jesus Cristo - e através deste o acesso à própria identidade do cristão - é um sinal da ação do Espírito Santo. E o Espírito Santo só pode ser percebido através dos sinais de sua ação. Tanto o seguimento pessoal de Jesus Cristo feito por cada cristão, como as comunidades de discípulos - as Igrejas - só são possíveis através do Espírito Santo e são sinais da ação dele.

Quando o diálogo interreligioso deve basear-se na própria identidade e a identidade do ser cristão só é possível pela ação do Espírito Santo, é preciso examinar qual a importância da ação do Espírito Santo no diálogo interreligioso. Primeiramente faz-se necessário, porém, destacar alguns aspectos da compreensão do Espírito Santo do ponto de vista cristão.


 

4.1. O Espírito Santo: o possibilitador

"O fato 'Jesus' não basta para explicar a Igreja e o cristianismo. A vida, a morte e a ressurreição de Jesus não produziram nada na história deste mundo por si sós. Sem o fato da experiência do Espírito Santo, Jesus não teria deixado nada. Sem dúvida a experiência do Espírito por si só não teria gerado o cristianismo. Não pode separar-se do fato Jesus. Pelo contrário ela tem por finalidade fazer com que Jesus entre na história dos homens e produza os fr0utos da sua encarnação"28. O Espírito Santo possibilita que Jesus Cristo permaneça na história, que ele não desvaneça com a história. O tempo entre o fato histórico Jesus de Nazaré e o Cristo de hoje é vencido pelo Espírito, que traduz os acontecimentos de então para o hoje. É o Espírito que leva à possibilidade de encontrar Cristo hoje. O evento Páscoa - a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo – ‘que aconteceu uma vez por todas’ é apropriado pelo cristão de hoje através do Espírito Santo. A história de amor de Deus para com a humanidade, que culminou na humanização do filho de Deus em Jesus Cristo, é atualizada e levada adiante na história através da ação do Espírito Santo enviado do Pai e do Filho. Através desta atualização, o Espírito Santo possibilita que aquilo que Jesus anunciou e viveu, seja vivido e testemunhado pelos cristãos. Em outras palavras, é através do Espírito Santo que Jesus Cristo torna-se para os cristãos caminho, verdade e vida, quer dizer, que ele seja encontrado e experimentado como salvador. "A ação do Espírito consiste em primeira linha em levar-nos à fé que Jesus foi enviado em nossa carne; em nos fazer reconhecê-lo e confessá-lo, de modo que possamos amar como ele amou (cf. 1Jo 4,14s, 3,23)"29.

A iniciativa divina como primeiro passo em direção ao humano e o deixar-se-tocar como resposta do fiel só podem ser entendidos no âmbito da ação do Espírito Santo, de modo que pode ser afirmado que o Espírito Santo é o possibilitador da fé. Através dele Jesus Cristo está presente na história e é reconhecido como Filho de Deus; através dele acontece a resposta de fé. O Espírito Santo é a iniciativa de Deus em direção ao humano e ao mesmo tempo o possibilitador de uma resposta do humano em direção ao divino, de modo que pela ação do Espírito Santo o humano é feito parceiro de Deus. Se faz necessário dizer ‘é feito’ pelo fato de não ser por própria iniciativa que o humano levanta-se e coloca-se como parceiro para um relacionamento com Deus, mas somente a partir da ação do Espírito, que é como que um adiantamento, um livre presente divino, é que o humano é posto em condições duma parceria com o divino.

A ação do Espírito Santo não pode ser entendida separadamente de Jesus Cristo, seu significado e sua missão. O Espírito Santo é o Espírito do Pai e do Filho, que renova e continua perenemente a presença e missão de Jesus Cristo na terra. A compreensão sobre a centralidade da ação do Espírito Santo não pode pois levar a um pneumatocentrismo. A ação do Espírito é renovação e não ruptura, não é contradição mais sim continuidade. A ação do Espírito Santo não se possibilita ou desabrocha a si mesma, mas aponta sempre a Jesus Cristo e ao seu senhorio divino nesta terra. A ação do Espírito está pois ligada à realização do envio do Filho em nós. O Espírito é a recordação da praxis e da mensagem de Jesus. Através da ação do Espírito Santo é possível Deus-conosco. "Sem ele, Deus é distante, Cristo é passado, o Evangelho é letra morta, a Igreja é apenas uma organização, a autoridade é domínio, a missão é propaganda, a celebração é evocação e o agir cristão é uma moral escrava" (Bispo Ignatius Hazim)30. Em uma palavra: a ação do Espírito Santo é que torna a fé viva.


 

4.2. Sinais da ação do Espírito de Deus

Quando se reconhece o Espírito Santo como o possibilitador da fé em Jesus Cristo, se diz pouco a respeito do Espírito Santo mesmo. Somente se aponta para sinais de sua ação. Dizer alguma coisa sobre o Espírito Santo mesmo parece ser algo um tanto difícil. Esta dificuldade está por um lado baseada no fato de que a tradição teológica da Igreja Católica descurou por motivos diversos duma reflexão sobre o Espírito Santo e por outro lado esta dificuldade advém da forma do próprio Espírito: "O Espírito Santo aponta para longe si, aponta para Cristo, e é experimentado mais como poder e força do que como ‘pessoa’. Assim, aquele que comunica a proximidade familiar de Deus é ao mesmo tempo particularmente inefável e abscôndito"31. Um acesso para uma melhor compreensão do Espírito Santo parece ser somente possível através de suas marcas, sinais de sua ação.

"’Espírito’ é tido se como uma ‘palavra originária’ não definível – e muito menos a priori"32. Pode-se tentar descobrir de forma associativa as idéias que estão por detrás da palavra. Ao significado primitivo da palavra ‘espírito’ são associados elementos como invisível, intocável, dinâmico, movimento, extasiante, arrebatador, assustador, vivificante, suscitador, força, tempestuoso, intranqüilo, criador. A palavra hebraica ‘ruach’ do Antigo Testamento ou a palavra grega ‘pneuma’ do Novo Testamento - nas duas palavras há o significado básico de ar movimentado, vento, sopro, respiração - são usadas em sentido religioso no contexto de força de Deus, que é tempestuosa, vivificadora, criadora, dinâmica, etc. Através de seu sopro Deus age junto ao seu povo escolhido: ele cria vida, suscita profetas, conduz juízes e guerreiros, paira sobre reis, mostra a força divina, suscita e mantém viva a esperança messiânica, clama por justiça, traz a salvação e a liberdade e assim por diante. No Novo Testamento, segundo Lucas (4,16-30), Jesus mesmo reporta-se ao profeta Isaías (61,1-2) para explicar sua missão: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para anunciar aos aprisionados a libertação, aos cegos a recuperação da vista, para pôr em liberdade os oprimidos, e para anunciar um ano de graça do Senhor. (...) E começou a falar: 'Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir'" (Lc 4,18-19.21). O Espírito de Deus acompanha o aparecimento público de Jesus desde o início - em seu batismo através de João no Jordão (Mt 3,13-17; Mc 1,9-11) -, Jesus é impulsionado pelo Espírito de Deus (Mc 1,12), está cheio do Espírito (Lc 4,1). O Espírito, que será enviado pelo Filho da parte do Pai (Espírito da verdade), irá dar testemunho de Jesus (Jo 15,26). O Espírito de Deus não irá abandonar os discípulos após a subida deste ao céu. O Espírito enche os apóstolos no dia de Pentecostes, de modo que eles são impulsionados a pregar, a testemunhar sua fé (At 2,1-13). É o Espírito Santo - como o entende Paulo - que espalha a boa-nova de Jesus, que faz com que ela chegue até as pessoas, que possibilita a fé nesta mensagem, que possibilita que os fiéis vivam conforme esta mensagem, que confirma os fiéis na comunidade cristã (Rm 8,16; 1Tes 1,5s; 1Cor 2,4s; Gl 3,1s; 4,6; 5,25). Paulo conclama os fiéis a deixar o Espírito agir (1Ts 5,19: "Não extingais o espírito").

O Espírito, que é sem face e sem nome, recebe contornos através de sua ação. A consciência ou o conhecimento do Espírito só pode ser deduzida a partir de sua ação - ou seja, de forma a posteriori. E o Espírito que leva o cristão a Jesus e sua mensagem, que suscita sinais do Reino de Deus anunciado por Jesus, quer dizer, o Espírito que faz com que vida, liberdade, alegria, libertação, amor, comunidade, justiça e todos as outras promessas messiânicas sejam vividas e experimentadas, este Espírito é santo. O Espírito de Deus é Espírito Santo. Tudo o que promove estes elementos (vida, liberdade, alegria...) pode ser entendido como força, como ação do Espírito Santo. O Espírito Santo, que não foi revelado a partir de um fato histórico, torna-se permanentemente história a partir de sua ação. Através desta ação a revelação de Deus em Jesus Cristo é atualizada na história. O reconhecimento desta atualização só pode ser dado após sua realização e Paulo aponta dois critérios pelos quais a ação do Espírito pode ser reconhecida pelos cristãos como ação do Espírito de Deus: a profissão de fé em Jesus Cristo e a edificação da comunidade (cf. 1Cor 12,3.7). Nestes dois critérios estão presentes dois elementos essenciais do ser cristão: a fé em Jesus Cristo como sinal do encontro pessoal com ele e a edificação da comunidade como conseqüência deste encontro. Deste modo a identidade cristã e a ação do Espírito de Deus são inseparáveis uma da outra.


 

4.3. "Não sabeis que vosso corpo é templo do Espírito Santo?" (1Cor 6,19a)

A questão é como entender a ação do Espírito de Deus? Foi afirmado que a identidade cristã é possibilitada pela ação do Espírito Santo, que Deus revela-se através de seu Espírito, que se abre em direção do humano e que por isso o Espírito de Deus possibilita a realização da fé, a impulsiona e torna presente a missão de Jesus Cristo através de sinais de amor, de vida, de justiça na terra, independente de lugar e tempo. A percepção de que o Espírito Santo é força de Deus, que renova e realiza a presença de Jesus Cristo constantemente na história e que tem como conseqüência o reconhecimento dos sinais daquilo que Jesus chamou de Reino de Deus, esta percepção podemos chamar de experiência do Espírito Santo33. Por força do Espírito a presença de Deus e seu Filho podem ser experimentadas; o Espírito deixar-se experienciar a si mesmo. O caminho de percepção de Deus e de Jesus Cristo não é no Cristianismo o caminho da dedução ou da pura razão, mas sim o caminho da experiência. Deus deixa-se experimentar, Jesus Cristo deixa-se experimentar e esta experiência acontece na concretitude deste mundo, na concretitude da realidade na qual o cristão vive. A ligação da experiência com a realidade deixa transparecer que a experiência de Deus não é uma experiência genérica, que acontece sozinha na paisagem, desligada da realidade. O contexto da experiência não é a experiência em si; ele forma porém tanto o âmbito no qual a experiência acontece, como o âmbito no qual esta experiência é percebida e interpretada. A experiência em si é porém a base34.

A experiência cristã é a de que Deus está em nós. Deus está em nós como força amorosa, vivificadora, criadora, que nos mantém no seguimento. Paulo aponta a conseqüência máxima desta experiência: "Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20). A ação do Espírito Santo não é algo externo ao humano; é sim força no humano e age externamente através do humano. "Pois neste sentido espírito é presença do espírito divino no espírito humano e Espírito Santo é espírito de amor, de justiça, de verdade"35.

Na tradição veterotestamentária a ação do Espírito (de Deus) é entendida como força, tempestade, poder irresistível. Esta força irresistível de Deus habita, segundo Paulo, em nosso corpo e nos vivifica em Jesus Cristo (Rm 8,11). Aos cristãos de Corinto pergunta Paulo: "Não sabeis que vosso corpo é templo do Espírito Santo?" (1Cor 6,19a). O encontro pessoal com Jesus Cristo é possibilitado pela ação do Espírito Santo em cada cristão. Com isso se aponta para a diversidade e a soberania desta experiência. O Espírito age onde e como quer (cf. Jo 3,8) e sua ação independe de condições pré-definidas.

Como esta experiência do Espírito pode ser entendida na reflexão de fé (teologia)? Como se pode fazer teologia deixando espaço para o Espírito Santo? Uma coisa é certa: se a teologia é entendida e feita como uma reflexão sobre a fé e a experiência da presença de Jesus Cristo através do Espírito Santo é tomada como base e conditio sine qua non para a fé cristã, então faz-se necessário que a experiência do Espírito Santo tome um significado central na teologia. Há porém o perigo constante de a teologia querer tornar-se independente da experiência de fé da presença de Deus. Há casos inclusive onde a experiência de fé é rejeitada como fator influenciador na reflexão teológica com a argumentação de ser ela subjetivista e impressionista. A teologia não tem mais neste caso uma relação com a fé e gira somente em torno de si mesma. Uma teologia que não veja mais a experiência de fé como sua fonte, praticamente não pode mais ser acolhida pelos fiéis como impulso e motivação para a fé. J. B. Metz reclama que "a teologia em si, a dogmática, definhou cada vez mais para uma doutrina objetivista", não tendo praticamente mais nenhum Sitz im Leben36. H. Waldenfels pergunta se o déficit de experiência de fé na teologia também não é um fator que impulsiona a - observada - procura de outras espiritualidades37. E J. Comblin constata que a teologia após Trento distanciou-se inclusive de qualquer significado para a reflexão teológica da experiência do Espírito e portou-se de forma extremamente desconfiada perante esta experiência quando não chegou a condená-la inclusive como superstição38. A consciência e o levar a sério a ação do Espírito Santo conheceu porém uma mudança na teologia e na Igreja após o Vaticano II. "O Espírito Santo é a grande novidade pós-conciliar"39. Foi redescoberto o que sempre acontecera e o que continua a acontecer: que o Espírito Santo, que é a força atuante de Deus em nós cristãos, é que é o continuador da obra de Jesus Cristo e que dá à sua mensagem constantemente novos impulsos e novas formas. Redescobriu-se que aquilo que Jesus anunciou como o Reino de Deus, precisa ser experimentado para que se torne realidade. O amor de Deus, o amor entre as pessoas, a justiça, as promessas messiânicas permanecem apenas elucubrações teológicas se não forem experimentadas e levadas adiante através da ação do Espírito Santo. E através da ação do Espírito Santo descobrimos que não estamos sós, mas em comunhão com Deus, com as pessoas humanas, enfim com toda a criação.


 

4.4. A comunidade: presença permanente da ação do Espírito

A experiência do Espírito Santo como força que conduz e mantém os cristãos no seguimento de Jesus Cristo e os possibilita fazer obras de amor, de justiça, é uma experiência pessoal. Há sem dúvida o perigo de que esta experiência seja interpretada a nível personalista e subjetivista. Como pode porém esta experiência pessoal do Espírito de Deus ser percebida como pessoal, sem porém ser interpretada de forma subjetivista? Os dois critérios paulinos do reconhecimento da ação do Espírito, aventados acima - a profissão de fé em Jesus Cristo e a edificação da comunidade - são critérios a serem aqui aplicados. A comunidade e sua edificação têm um significado central no reconhecimento a posterior da ação do Espírito. A comunidade de fé é o âmbito dentro do qual pode ser evitado o perigo de uma interpretação personalista da ação do Espírito. Com isso não se quer dizer que uma experiência do Espírito seja apenas possível no âmbito da comunidade, ou que uma experiência do Espírito que aconteça fora do âmbito da comunidade deva por isso ser desqualificada. Com o que foi afirmado se quer acentuar apenas a importância especial que tem a comunidade na experiência do Espírito; isto pelo próprio fato de ser a comunidade mesma um resultado, uma conseqüência da ação do Espírito. Justamente através da ação do Espírito Santo é que surge a Igreja como comunidade de fiéis no seguimento de Jesus Cristo. A ação do Espírito cria comunidade e sem a ação permanente do Espírito, que atualiza a presença de Jesus Cristo e sua mensagem no concreto da história, a Igreja seria apenas um ‘clube de memória’, que se mantém através do cumprimento de normas. A ação do Espírito traz uma renovação permanente na Igreja, não deixa com que ela perca sua vivacidade na história. O Concílio Vaticano II acentuou de forma especial a centralidade da ação do Espírito para a Igreja: O Espírito Santo "leva a Igreja ao conhecimento da verdade total (cf. Jo 16,13). Unifica-a na comunhão e no ministério. Dota-a e dirige-a mediante os diversos dons hierárquicos e carismáticos. E adorna-a com seus frutos (cf. Ef 4,11-12; 1Cor 12,4; Gl 5,22)"40. O Papa Paulo VI chamou o Espírito Santo de “alma da Igreja”41. As renovações que acontecem dentro da comunidade dos fiéis e que possibilitam que a mensagem de Jesus Cristo tome forma nas diferentes realidades são sinais concretos da ação contínua do Espírito Santo. "Os teólogos reconhecem como sinais da atuação do Espírito o novo jeito de lidar com a Bíblia, a reaquisição da capacidade para a oração espontânea e pessoal, bem como para a festa e a celebração, as experiências de uma nova condição de sujeito na ação individual e comunitária"42.

É claro que a experiência de renovações pode trazer tensões e até confusão na comunidade dos fiéis. Por isso talvez a instituição Igreja "nunca perdeu inteiramente o medo do Espírito" (C. Schütz)43. O Espírito mesmo porém exige uma abertura para o novo na comunidade dos fiéis, que é comunidade morta sem esta abertura44.

O Espírito de Deus não aponta para si mesmo, mas é força que aponta para Jesus Cristo e propicia frutos no sentido da mensagem de Jesus. A comunidade dos fiéis - que é sinal da presença permanente da ação do Espírito Santo - precisa por sua vez estar também aberta para o outro, para a sociedade onde vive. Como o Espírito não aponta para si mesmo, também a ação dele no cristão e na comunidade dos cristãos provoca um "estar aberto para o outro". O Espírito mantém a comunidade atenta para o outro, para a realidade na qual acontece concretamente o discipulado. A Experiência do Espírito não leva a comunidade dos fiéis a um distanciamento da realidade, pelo contrário, impulsiona justamente a comunidade dos discípulos de Jesus a agir na realidade seguindo a sua mensagem45.


 

5. Conseqüências deste acesso pneumatológico para o diálogo com o Candomblé


 

A ação do Espírito Santo que renova a comunidade dos discípulos de Jesus Cristo só pode ser percebida e identificada como tal a posteriori. Assim pode-se, por exemplo, a posteriori identificar à luz da ação do Espírito Santo as renovações trazidas pelo Concílio Vaticano II para Igreja Católica. Também o movimento ecumênico, que recebeu através do Concílio um impulso decisivo, pode ser entendido como ação do Espírito Santo. Do mesmo modo deve também o diálogo interreligioso ser interpretado como sinal da ação do Espírito Santo. É a força do Espírito Santo que impulsiona os cristãos a entrar em contato com fiéis de outras religiões, a procurar um diálogo, a abrir-se para conhecer outras religiões. E se é o Espírito que possibilita o seguimento de Jesus Cristo, também é o mesmo Espírito de Deus que garante a identidade cristã neste diálogo, é o mesmo Espírito inclusive que possibilita que os cristãos apresentem sua identidade no diálogo. Um diálogo interreligioso, que pretende ter como base a própria identidade religiosa, precisa ser sustentado pneumatologicamente.

Esta fundamentação geral sobre a importância do Espírito Santo no diálogo interreligioso precisa agora ser pensada no caso concreto do diálogo entre cristãos e membros do Candomblé. Não se trata de uma tentativa de definir a Igreja ou a comunidade de discípulos de Jesus Cristo diante do Candomblé a partir da pneumatologia, mas sim apontar para o papel da ação do Espírito Santo no diálogo entre estas duas religiões. A pergunta inicial é: que perspetivas se abrem para o diálogo entre cristãos e membros do Candomblé quando os cristãos entendem o diálogo como conseqüência da ação do Espírito Santo?


 

5.1. O Espírito da unidade não é o da unilateralidade

O Espírito Santo que possibilita e mantém a fé cristã não faz com que os cristãos fiquem cegos perante a realidade. Muito pelo contrário. O Espírito é luz e os cristãos podem através da ação do Espírito ver a realidade onde vivem com a luz da fé e a partir da fé agir sobre esta realidade. O Espírito possibilita a unidade em Jesus Cristo, mas não fecha os olhos dos cristãos para a realidade como um todo. Unidade - entendida a partir da ação do Espírito Santo - exclui unilateralidade. "O Espírito Santo não pode ser cooptado "46 – nem pelos cristãos.

A pluralidade em diversos aspectos entre os cristãos mesmos não está em contradição com a ação do Espírito Santo. O contrário talvez fosse o caso. "O Espírito age de tal modo que todos sejam um e que a unidade seja pluralidade"47. A ação do Espírito de Deus mesmo é o princípio da pluralidade à medida em que o Espírito de Deus ocasiona liberdade, cria espaço de vida, suscita relações entre as pessoas humanas e Deus e das pessoas humanas entre si. "Pois o Espírito une sem uniformizar"48.

É um sinal da ação do Espírito Santo que os cristãos experimentem e reconheçam com o tempo, de forma cada vez mais clara, que a unidade, seja entre os cristãos, seja entre as pessoas que têm fé neste mundo, só é possível preservando a pluralidade. Por isso nem a criação de uma única Igreja, nem de uma única religião são possíveis ou inclusive desejáveis.

Embora a opção cristã pelo seguimento de Jesus Cristo seja em certo sentido uma opção unilateral ela não pode levar à unilateralidade ou à cegueira dos cristãos perante outras opções. Na realidade brasileira, isto significa concretamente que os cristãos não estão cegos perante as outras opções religiosas existentes em nossa sociedade. É também sinal da ação do Espírito Santo quando os cristãos não deixam de ver esta realidade, mas a acolham e percebam as propostas destas religiões. É também sinal da ação do Espírito Santo quando os cristãos percebem esta realidade religiosa chamada Candomblé. Fechar-se perante o Candomblé‚ não é condizente com a compreensão da dinâmica do Espírito Santo e sua ação na vida dos cristãos. A partir da compreensão da ação do Espírito Santo não se pode justificar uma atitude de fechamento perante o Candomblé. Pela iluminação do Espírito Santo os cristãos podem entrar em contato com o Candomblé, analisar seu papel na história de nossa sociedade e analisar inclusive até que ponto nesta história os cristãos mesmos deixaram-se guiar pelo Espírito de vida, de justiça, de liberdade, pelo espírito do Reino de Deus anunciado por Jesus. Também é sinal da ação do Espírito Santo quando os cristãos reconhecem no Candomblé a Religião dos Orixás, que é outra que a cristã, mas que também através de sua ação e forma de vida é capaz de acolher as questões e preocupações da existência humana e oferecer a elas uma resposta.


 

5.2. O Espírito impulsiona para a abertura

A ação do Espírito Santo possibilita o seguimento de Cristo, isto é, possibilita que os cristãos todos tenham um ponto de referência central comum: o seguimento de Jesus Cristo. É o Espírito que os mantém constantes neste ponto de referência, neste ponto de convergência. O movimento na direção contrária também é possibilitado igualmente pelo Espírito: que os cristãos, como cristãos, ajam para fora, sejam abertos, vivam e atuem a partir de sua identidade. Quem recebeu o Espírito de Deus, que o levou a um encontro pessoal com Jesus Cristo, também deve viver segundo este Espírito (cf. 1Cor 2,12-16; Gl 5,25). Através do Espírito os cristãos convergem para sua identidade, mas não tornam-se unilaterais, podendo ter a capacidade de perceber a pluralidade através da ação do mesmo Espírito que os impulsiona para fora. "A atuação do Espírito, seu poder de vida, seu auxílio e seu testemunho da verdade são experienciados primeiramente no interior da pessoa, mas esta certeza experiencial busca o exterior, quer ser confirmada no testemunho de vida"49. A soberania da fé cristã é um dom do Espírito com o qual os cristãos apresentam-se no mundo e testemunham a fé "Longe de ser um fechamento da consciência sobre si mesma, a experiência do Espírito lança os homens para o mundo"50.

Através do Espírito os cristãos não são direcionados para o próprio eu, mas sim para fora, em direção ao outro, de modo que a ação do Espírito não pode ser compreendida apenas como intra-cristã, mas também para além das fronteiras do Cristianismo. É pelo Espírito que o cristão entra em contato com fiéis de outra crença, conservando sua identidade de fé.

Visto desta forma, não é possível compreender um encontro positivo do cristão com um fiel de outra religião a não ser através da ação do Espírito e o diálogo que se desenvolve a partir deste encontro positivo não chega a acontecer se o cristão não deixar-se guiar pelo Espírito. O encontro com o outro, que por causa de sua religiosidade diferente pode ser sentido como ameaça ou atração, torna-se um encontro fértil à medida que a identidade do outro é percebida e a própria identidade não é negada.

Ameaça e atração não podem ser descartadas num encontro positivo de cristãos com o Candomblé. Quando se começa a observar de perto o sistema religioso do Candomblé‚ não há como negar que ele tenha um certo poder de atração. A vivacidade das celebrações religiosas nos terreiros, a proximidade e intensidade da experiência religiosa no Candomblé através do transe, a intimidade entre o Orixá e seu filho (sua filha), a experiência forte que tem os membros do Candomblé da presença do Orixá em sua vida, o caminho de integração da pessoa na comunidade, o forte espírito de solidariedade entre os membros dum terreiro etc. são aspectos que despertam sem dúvida uma certa atração pelo Candomblé. E justamente esta atração pode ser sentida talvez como ameaça para o cristão. Esta atração questiona a experiência religiosa do cristianismo. A experiência religiosa intensa do Candomblé‚ coloca em questão até que ponto o encontro pessoal com Jesus Cristo é experienciado pelos cristãos. J. G. Piepke coloca em questão inclusive até que ponto aquilo que é anunciado pela Igreja como experiência religiosa cristã é de fato tão visível e palpável, tão intensivo como a experiência religiosa no Candomblé: "Por outro lado a mediação de salvação sacramental da Igreja não oferece nenhuma base suficiente de experiência, de modo que a graça mediada pelo Cristianismo não é tão visível e palpável como o Axé transmitido no Candomblé"51. Esta constatação ameaçadora para o cristão num encontro com o Candomblé‚ não é porém nenhum convite à capitulação. Também não é nenhum convite para uma febril fundamentação racionalista da posição cristã. É sim um convite a rever até que ponto os cristãos e suas comunidades deixam livre espaço para a ação do Espírito Santo. Um encontro com o Candomblé, que por parte do Cristianismo tenha por base a própria identidade, deve ser alicerçado na experiência cristã de fé, pois sua identidade está ancorada na ação do Espírito que possibilita uma experiência pessoal de Jesus Cristo, experiência esta que tem como conseqüência o discipulado. A melhor base para o cristão encontrar o Candomblé é justamente a soberania de sua experiência do Espírito Santo.


 

5.3. A comunidade em sentido mais amplo possível: ação do Espírito

O Espírito Santo é dom do Pai e do Filho e é comunhão entre os dois. Com estes dois conceitos, dom (donum) e comunidade (communio) Santo Agostinho tenta caracterizar o Espírito Santo. Já apontamos acima as conseqüências destas duas características na ação do Espírito Santo. O Espírito Santo é iniciativa de Deus, cuja força promove comunidade entre os seres humanos, de modo que a comunidade dos seguidores de Jesus surge desta ação do Espírito. O Espírito Santo liga os cristãos com Jesus Cristo, possibilita a experiência dele e com isso os cristãos também interligam-se entre si. Pela força do Espírito as relações entre as pessoas são reordenadas, da solidão para uma relação com Deus, do ser-só para uma relação comunitária. O Espírito Santo é força que arrebenta toda solidão e chama o ser humano à capacidade de se relacionar. "O Espírito Santo presenteia a possibilidade de viver de maneira mais integrada e a mais capaz de relações"52.

Estes dons do Espírito não podem ser entendidos apenas como sendo intra-eclesial ou inter-cristão. O Espírito ultrapassa as fronteiras da Igreja ou do Cristianismo e capacita os cristãos a formar comunidade para além destes limites. É missão do Espírito formar comunidade e é envio do Espírito, quando os cristãos por força de seu seguimento de Jesus Cristo em seu contato com fiéis de outras crenças possibilitam uma vida mais capaz de relacionamento.

Para o encontro entre cristãos e fiéis do Candomblé isto significa que no diálogo não é objetivo primordial procurar unidade onde a diversidade tem lugar, não é procurar unidade onde as duas religiões se separam e diferenciam. Através da ação do Espírito os cristãos são chamados no diálogo a procurar communio, onde ela é possível e possibilitá-la onde é necessária. A busca de comunidade no sentido mais amplo possível, onde nem a comunidade cristã nem a comunidade do terreiro esteja no centro, mas sim a vida e a convivência de pessoas humanas, é sinal da ação do Espírito. Com isso a identidade cristã não é perdida. A contribuição dos cristãos para uma vida mais capaz de formar comunidade é também um passo de veri-ficação (ficar verdade) da própria identidade. "Verdade comprova-se em sua força de comunidade e de promover a vida. Humanização, conservar a abertura, ser humano de forma total e integral através da quebra da auto-satisfação individual e coletiva, a luta contra a exploração e opressão, o engajamento pela paz, justiça e preservação da criação, em uma palavra: promoção da salvação são seu conteúdo e critério" (R. Bernhardt)53. E quão necessária é esta verdade a cristãos e membros do Candomblé no Brasil! A partir de sua identidade no seguimento de Jesus Cristo os cristãos têm muito a colaborar na realização de uma comunidade em sentido mais amplo possível. Para isto é necessária uma abertura radical, não em primeiro lugar em relação aos membros do Candomblé, mas em relação à ação do Espírito. Um diálogo entre cristãos e membros do Candomblé que possibilite mais capacidade de vida e de convivência ultrapassa as fronteiras religiosas e torna-se modelo para qualquer convivência humana. O diálogo religioso teria então já de muito ultrapassado os limites religiosos (do ponto de vista institucional) para ganhar lugar no dia-a-dia do humano. Assim, cristãos e membros do Candomblé descobrem que na busca da realização da própria identidade religiosa, eles encontram-se em muitos sentidos na mesma trilha. O rosto do outro torna-se vestígio: vestígio da ação do Espírito que conduz o cristão no seguimento de Jesus Cristo a realizar communio para além das fronteiras da própria identidade.


 

5.4. Através do Espírito: companheiros no estar a caminho da fé

A experiência religiosa, quer dizer, a percepção da realidade divina, que acontece pela força do Espírito, nunca é uma experiência completa, uma experiência que faz compreender a realidade Deus de uma vez por todas. Estas experiências são vestígios de percepção de Deus na história. Eles podem não ser vistos, como também vistos e seguidos. A experiência pode tornar-se caminho. Quando um cristão encontra um fiel do Candomblé ele encontra no fundo alguém que também fez dos vestígios da experiência um caminho de vida - claro de uma forma bem diferente do caminho cristão. Seguir os caminhos dos vestígios de Deus na história não é nenhum monopólio cristão. Tanto cristãos como fiéis do Candomblé encontram-se a caminho. O caminho concreto do cristão é o seguimento de Cristo; o caminho concreto do fiel do Candomblé é o caminho do relacionamento com seu Orixá. Os dois encontram-se porém no fato de estar a caminho, são por assim dizer companheiros neste aspecto. Este fato pode tornar-se um ponto chave do encontro. A procura pelo sentido, pela felicidade, pela realização, a procura por uma resposta à pergunta pela origem e pelo destino não se dá por satisfeita com uma resposta teórica. A resposta da fé a estas perguntas no Cristianismo é o caminho concreto do seguimento de Jesus Cristo. Na concretitude deste seguimento é que o cristão encontra a resposta a estas perguntas. Este caminho não é descoberto ou experimentado à medida que se faz uma teoria a respeito dele. Ele é descoberto e experimentado pela pessoa e pela comunidade à medida em que os cristãos se deixarem conduzir pelo Espírito de Deus e se colocarem a caminho, à medida em que este caminho toma uma forma concreta na vida.

Este caminho concreto de fé que no Cristianismo e no Candomblé são percorridos de forma diferente oferece a chance do encontro: um encontro a nível da experiência de fé. Neste encontro o outro não é observado e avaliado a partir de uma distância segura, mas é experienciado de certa forma como companheiro de destino. Podemos lançar mão aqui da imagem da percepção do mar utilizada por H. Waldenfels: a percepção do mar não se esgota em observar o mar a partir de um ponto seguro na praia; a percepção verdadeira acontece quando se entra nas ondas do mar54. E neste ‘entregar-se às ondas do mar’ (entregar-se à experiência religiosa) são companheiros tanto cristãos como membros do Candomblé. Este fato pode tornar-se ponto de encontro, onde a fé aplaina o caminho para a convivência na sociedade, independente de uma construção lógica, filosófica ou teológica.

O cristão está consciente de que não tem monopólio sobre a ação do Espírito Santo neste mundo. Ele está consciente de que a ação do Espírito Santo não pode ser limitada pelas fronteiras das Igrejas, nem pelo âmbito do Cristianismo institucional. Esta consciência aponta para o fato de os cristãos terem que admitir que "o Espírito de Deus fala para além e mais amplamente que as práticas cristãs"55.

Esta consciência permanece porém pura teoria se os cristãos não começarem nos lugares concretos onde eles vivem a ver com os olhos da fé as outras religiões, com as quais eles entram em contato, e suas práticas religiosas. O contato com os fiéis do Candomblé e a descoberta da experiência de fé desta religião na busca por sentido e realização, convidam os cristãos a procurar e descobrir aí também vestígios da ação do Espírito de Deus.

Não se pode negar que o Candomblé oferece a seus fiéis um caminho de sentido, que ele ofereceu um caminho de esperança aos negros no Brasil em sua história de sofrimento e escravidão. "E se os escravos conseguiram recriar sua religião no Brasil e no Haiti e nela encontraram forças para resistir nestes 500 anos, então temos que dizer: Ali fala sim o Espírito de Deus a nós. Isto precisamos entender"56.

Claro que esta atitude exige do cristão um pouco de auto-relativização. Esta relativização acontece não perante aquele, cujos vestígios de experiência religiosa o cristão pode perceber, mas perante a própria capacidade de estar em condições de poder dar uma tal resposta à experiência própria, que esteja à altura da reivindicação proposta por uma tal experiência. A resposta do humano e a proposta de Deus não podem ser niveladas (2Cor 4,7: "Um tal tesouro nós o trazemos em vasos de barro, para que apareça claramente que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós"). A vida cristã na comunidade dos fiéis nunca poderá ser igualada à vida no Reino de Deus anunciado por Jesus. Ela será apenas - oxalá o seja! - sinais do Reino de Deus. Impulsionados pelo Espírito de Deus os cristãos procuram dar frutos duma vida no Espírito (Gl 5,22-23: "Os frutos do espírito são: caridade, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, continência"). Esta auto-relativização também leva os cristãos a não reivindicar que eles sejam os únicos capazes de perceber e seguir os vestígios de Deus na história57.

A consciência a respeito da própria relatividade concorre para uma outra atitude no encontro com o fiel de outra crença: a atitude de quem está à procura; e esta é justamente a atitude daquele que deixa espaço para que o Espírito possa agir.

O entrar no mar e entregar-se às suas ondas, ou seja, o dar espaço livre ao Espírito de Deus, não é para o cristão nenhum pulo no escuro ou na incerteza. Embora ele não veja tudo claro e nem entenda tudo, ele está cheio da certeza de que não está entregue ao destino incerto, mas de que é sustentado e que está no caminho certo. "Não vos deixarei órfãos" (Jo 14,18): esta certeza de ser acompanhado e sustentado pela presença do Espírito de Deus e de seu Filho, dá ao cristão a segurança de poder abrir-se em direção ao fiel do Candomblé e sua experiência religiosa.


 

Dr. Volney J. Berkenbrock
Universidade Federal de Juiz de Fora (MG)

 

1 "Diálogo quer dizer antes de tudo um outro respeito diante do ser-sujeito do outro, respeitando em primeiro lugar, o que e como o outro é e quer ser, como ele mesmo se auto-compreende". H. Waldenfels, Kontextuelle Fundamentaltheologie, Paderborn 1988, 397.
2 R. Bernhardt, Der Absolutheitsanspruch des Christentums. Von der Aufklärung bis zur pluralistischen Religionstheologie, Gütersloh 1993, 14.
3 R. Bernhardt, op. cit., 11-12.
4 K. Rahner, Curso Fundamental da Fé, Edições Paulinas, São Paulo 1989, 71. "Mas o correto em todas essas afirmações é o simples fato de que não possuímos Deus em si mesmo como objeto entre outros". K. Rahner, op. cit., 84.
5 L. Boff, Jesus Cristo Libertador, Vozes, Petrópolis 1983, 275-276.
6 "Deus estabelece livremente um diálogo com o homem - de mim para você - convidando-o a uma resposta verdadeiramente livre". R. Muñoz, O Deus dos Cristãos, Vozes, Petrópolis 1986, 231.
7 K. Rahner, op. cit., 72.
8 "A experiência nos ensina que a res-posta humana jamais consegue exaurir a proposta divina". L. Boff, op. cit. 276.
9 "Fé é a situação de estar tomado por aquilo que imprescindivelmente nos diz respeito". W. Schüssler, Das kopernikanische Prinzip und die Theologie der Religionen. Zu Paul Tillichs religionsphilosophischem Beitrag zum interreligiösen Dialog. Em: Zeitschrift für Missionswissenschaft und Religionswissenschaft 77 (1993), 142.
10 "Mas, para permanecer verdadeira, toda ontologia metafísica sobre Deus deve sempre retornar à sua fonte, deve retornar à experiência transcendental de sua referência ao mistério absoluto, deve retornar à prática do existencial do livre acolhimento dessa referência". K. Rahner, op. cit., 72.
11 R. Bernhardt, op. cit., 218.
12 B. J. Hilberath, Pneumatologia. Em: T. Schneider (org.), Manual de Dogmática, Vol. I, Petrópolis, Editora Vozes, 2000, 480.
13 Aqui numa citação de J. Zehner, Der notwendige Dialog. Die Weltreligionen in katholischer und evangelischer Sicht, Gütersloh, 1992, 16. "Deus ou aquele mistério da realidade impossibilita por si mesmo que no mundo religioso-pluralista de nossos dias, uma religião reivindique ser a 'única' e a 'última' palavra". J. Zehner, op. cit., 175.
14 R. Bernhardt, op. cit., 237.
15 Aqui numa citação de J. Zehner, op. cit., 280.
16 "Em todos os casos poderíamos nós também ser mais críticos perante nossa própria expressão de fé; poderíamos descobrir que a contribuição dos germanos, dos romanos, dos gregos, dos judeus é muito maior do que comumente se admite. Por que dever-se-ia pois impedir os povos asiáticos e africanos de procurar seus próprios caminhos?" A. Rotzetter, Leidenschaft für Gottes Welt, Zürich 1988, 130-131.
17 H. Waldenfels, Zwischen Dialog und Protest. Religionstheologische Anmerkungen zu den Neuen Religiösen Bewegungen. Em: Stimmen der Zeit 210 (1992), 186.
18 M. Delgado, Theologie angesichts religiöser Vielheit. Die theologische Hauptaufgabe im Umgang mit nichtchristlicher Religiosität. Em: Zeitschrift für Missionswissenschaft und Religionswissenschaft 77 (1993), 189.
19 Dignitatis Humanae 10.
20 Esta reivindicação ficou clara e foi sublinhada na declaração do II Congresso Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura, realizado na cidade de Salvador da Bahia de 17 a 23 de julho de 1983. Os membros do Candomblé são conclamados a ter orgulho do Candomblé como religião e a distanciarem-se das posições que apresentam o Candomblé como folclore. Cf. B. Kloppenburg, O Sincretismo Afro-Brasileiro como Desafio à Evangelização. Em: Teocomunicação 96 (1992), 209.
21 G. Gäde, Offenbarung in den Religionen? Anselmianische Überlegungen zum Dialog mit den Religionen. Em: Münchener Theologische Zeitschrift, 45 (1994), 19.
22 G. Collet. Bekehrung - Vergleich - Anerkennung. Die Stellung des Anderen im Selbstverständnis der Missionswissenschaft. Em: Zeitschrift für Missionswissenschaft und Religionswissenschaft 77 (1993), 212.
23 "Na minha opinião não se ganha nada com uma prática de diálogo, onde cada qual precisa em primeiro lugar deixar de lado sua auto-compreensão". J. Zehner, op. cit., 286.
24 Y. Congar, Der Heilige Geist, Freiburg 1986, 237.
25 J. Sobrino, Cristologia a partir da América Latina. Esboço a partir do seguimento do Jesus histórico, Vozes, Petrópolis 1983, 397.
26 "E no mais faria bem a nós cristãos não nos enganarmos, dizendo que nossa religião tem resposta a todos os enigmas da existência humana" M. Delgado, Theologie angesichts religiöser Vielheit. Die thelogische Hauptaufgabe im Umgang mit nichtchristlicher Religiosität. Em: Zeitschrift für Missionswissenschaft und Religionswissenschaft 77 (1993), 200.
27 L. Boff, Nova Evangelização. Perspectiva dos oprimidos, Vozes, Fortaleza 1990, 95.
28 J. Comblin, O Espírito Santo e a Libertação, Vozes, Petrópolis 1987, 16.
29 Y. Congar, op. cit., 70.
30 Aqui numa citação de Y. Congar, op. cit., 188.
31 B. J. Hilberath, op. cit., 405.
32 B. J. Hilberath, op. cit., 408.
33 "Por experiência se entende a percepção da realidade de Deus naquilo que vem a nós, age em e através de nós, que nos atrai para si em comunidade, uma amizade, isto é, para um ser-para-o-outro". Y. Congar, op. cit., 17.
34 G. Mensching faz inclusive da ‘experiência’ a base para a compreensão de religião: "Religião é o encontro experiencial com o sagrado e a resposta ativa do humano determinada pelo sagrado". Aqui numa citação de R. Bernhardt, op. cit., 88.
35 W. Schüssler, op. cit., 147.
36 Aqui numa referência de H. Waldenfels, "Spiritualität": Zur 'Wahrnehmung de Geistes' und zur 'Unterscheidung der Geister'. Em: M. Bönke/H. Heinz (org.), Im Gespräch mit dem Dreieinen Gott. Elemente einer trinitarischen Theologie. F. S. para W. Breuning, Düsseldort 1985, 387.
37 H. Waldenfels, "Spiritualität": Zur 'Wahrnehmung de Geistes' und zur 'Unterscheidung der Geister'. Em: M. Bönke/H. Heinz (org.), Im Gespräch mit dem Dreieinen Gott. Elemente einer trinitarischen Theologie. F. S. para W. Breuning, Düsseldort 1985, 387.
38 "A doutrina comum sobre a graça tal como prevaleceu depois de Trento contribuiu poderosamente para eliminar da vida dos cristãos as possíveis experiências do Espírito. Na vida religiosa popular tudo o que não se conformava com a racionalização oficial foi condenado como superstição. Tudo o que podia ter contato com emoções psicológicas ou com a sensibilidade religiosa foi considerado perigoso pelo clero." J. Comblin, op. cit., 33-34.
39 J. Comblin, op. cit., 10.
40 Lumen Gentium 4.
41 Evangelii Nuntiandi n. 75.
42 B. J. Hilberath, op, cit., 406.
43 Aqui numa citação de B. J. Hilberath, op. cit., 407.
44 "A Igreja é carismática porque tudo o que se faz realmente nela procede de carismas do Espírito. Se os carismas não são acolhidos e respeitados, a vida foge e a instituição esvazia-se." J. Comblin, op. cit., 198.
45 "A experiência do Espírito realiza-se dentro da história, na ação do sujeito histórico. Não se separa da consciência do agir no mundo." J. Comblin, op. cit., 62.
46 B. J. Hilberath, op. cit., 494.
47 Y. Congar, op. cit., 171.
48 J. Comblin, op. cit., 101.
49 B. J. Hilberath, op. cit., 440.
50 J. Comblin, op. cit., 20.
51 J. Piepke, Die afro-brasilianische Kulte. Herausforderung des Heilsmonopols der Katholischen Kirche in Lateinamerika. Em: Theologie der Gegenwart 36 (1993), 208.
52 B. J. Hilberath, op. cit., 492.
53 Aqui numa citação de M. Delgado, op. cit., 197. M. C. Lucchetti Bingemer liga a ação do Espírito Santo à descoberta de estruturas que impedem a realização dos sinais do Reino de Deus: estruturas de injustiça, de opressão etc. Cf. M. C. Lucchetti Bingemer, O Espírito Santo na Espiritualidade Cristã. Em: Convergência 182 (19985), 225.
54 Cf. H. Waldenfels, Spiritualität..., 389.
55 M. Schwantes, Biblische Wurzel der Befreiungstheologie. Em: Hirschberg 45 (1992), 6.
56 M. Schwantes, op. cit., 6.
57 "As épocas, que pensavam poder saber e dizer - muitas vezes de forma cruel - quem era por Deus e quem não, foram sempre épocas intolerantes. Eram épocas da cristandade e não da catolicidade. Hoje a Igreja é chamada a encontrar-se de uma nova forma com povos, culturas e religiões". Y. Congar, op. cit., 190.