descobrir e discernir o rumo do Espírito


 

Uma reflexão a partir da Bíblia


 

Introdução

1a Parte

A descrição da experiência da vida no Espírito
O sabor e a surpresa da novidade do Espírito
1. O sabor da Novidade
A novidade da vida no Espírito segundo a visão de Lucas nos Atos dos Apóstolos
Aspectos da novidade da vida no Espírito nos outros escritos do NT
Um primeiro critério de discernimento
2. A surpresa da Novidade
Os problemas das comunidades e a diversidade dos Espíritos
A busca da causa e da solução


2a Parte

O esforço feito para compreender o significado da novidade no Espírito
O quadro de referências que vem do passado já vivido
1. A ação da Ruah, traduzida pela nossa palavra Espírito

 

A ação da Ruah nas criaturas
A ação da Ruah de Deus Criador
2. A ação do Go’el , o defensor do povo
3. A visão apocalíptica dos dois mundos
4. Conclusão


3a Parte


O esforço feito para poder discernir os espíritos
O quadro de referências que vem da prática de Jesus
1. O critério básico: o Espírito que anima as comunidades é o Espírito de Jesus
2. O critério do amor que nos vem da prática de Jesus
3. Critérios de discernimento que nos vem da prática das comunidades
4. Um caso concreto de discernimento na comunidade de Corinto.
Conclusão


 


Introdução
 

A palavra Espírito aparece na Bíblia desde o começo do livro do Gênesis (Gn 1,2) até o fim do Apocalipse (Ap 22,17). Ela nem sempre tem o mesmo significado. O que nos interessa, nesta breve exposição, é apresentar alguns critérios que nos ajudem a entender melhor o alcance daquilo que o NT afirma sobre a ação do Espírito Santo na vida das pessoas que acreditam em Jesus e, assim, tirar algumas conclusões práticas para nós hoje.

As afirmações do NT sobre a vida no Espírito dizem respeito sobretudo à experiência das Comunidades. Nestas afirmações podemos distinguir vários níveis ou enfoques: 1) Um primeiro nível é o da descrição ou da verbalização da experiência. Ele deixa transparecer uma experiência comunitária vivida num sabor de total novidade que revolucionou a vida das pessoas mas também trouxe surpresas, muitos problemas e não saber. 2) Um segundo nível ou enfoque é o do recurso a imagens e símbolos do AT para descrever a ação do Espírito. Aqui transparece o esforço dos primeiros cristãos para compreender a novidade da vida no Espírito a partir das categorias familiares da história do povo de Deus. 3) Um terceiro nível é o dos conselhos de orientação prática para saber como viver segundo o Espírito (Gl 5,16). Ele revela o esforço de descobrir o rumo do Espírito na vida das comunidades e de, assim, poder discernir os espíritos, pois nem tudo que parecia ser do espírito era do Espírito de Jesus. 4) Finalmente, um quarto nível é o das afirmações e ensinamentos, tanto de Jesus como dos cristãos, sobre a origem ou a procedência do Espírito. É aqui que aparece a dimensão trinitária. Na maioria dos textos, estes quatro níveis ou enfoques existem misturados entre si. Os três primeiros formam as três partes desta exposição, o quarto será a sua breve conclusão.


 

1o Nível
A descrição da Experiência
O sabor e a surpresa da novidade do Espírito


 

1. O sabor da Novidade

A experiência da vida no Espírito foi de uma total novidade que compenetrou toda a vivência da fé das primeiras comunidades. Foi um novo começo, uma nova criação (Gl 6,15; 2 Cor 5,17), um novo nascimento (Jo 3,3-7), uma verdadeira ressurreição (Rm 6,4; Fl 3,10). O livro dos Atos, escrito nos anos 80 ou 90, permite perceber e saborear como os cristãos da época de Lucas, a uma distância de 40 a 50 anos, ainda guardavam uma imagem viva da ação do Espírito no início da Igreja.


 

A novidade da vida no Espírito segundo a visão de Lucas nos Atos dos Apóstolos

O Espírito é a força que desce do alto (Lc 24,49), provoca uma mudança radical nos discípulos e nas discípulas, e os transforma em testemunhas de Jesus para o mundo inteiro (At 1,8). A sua vinda no dia de Pentecostes é vista como um “batismo no Espírito” (At 1,5; 11,16). Prometido pelo Pai, garantido por Jesus enviado por ele (At 1,4.8), o Espírito desce como barulho de ventania forte em forma de línguas de fogo (At 2,1-3). Toma conta das pessoas, faz com que soltem a língua e comecem a anunciar as maravilhas de Deus (At 2,11). Comunica coragem para anunciar a Boa Nova (At 4,31), faz perder o medo diante das autoridades (At 4,8.19) e confere aos que o receberam uma identidade nova como testemunhas de Jesus (At 5,32; 15,28). Receber o Espírito é a nova porta que introduz as pessoas – sejam elas judias ou gregas – no povo de Deus, na comunidade (At 10,44-17; 11,18; 15,8). Ter o dom do Espírito é condição para se poder exercer a diaconia (At 6,3). As comunidades são cheias da consolação do Espírito e de alegria (At 9,31; 13,52). A identificação do Espírito com a Comunidade é tal que mentir à Comunidade é o mesmo que mentir ao Espírito Santo (At 5,3.9). A experiência da vida no Espírito é tão forte, que pessoas não bem intencionadas ou não bem formadas alimentem o desejo de adquirir o dom do Espírito por meio de dinheiro (At 8,19). O Espírito é conferido pelo batismo (At 2,38), pela imposição das mãos (At 8,18; 9,17; 19,6), pela oração (At 8,15). Quando a oração é feita em comunidade, ela até provoca um novo pentecostes (At 4,31). O Espírito também se manifesta sem intermediário, sem aviso prévio, e desce, de repente, provocando surpresa e revisão do rumo da comunidade, como aconteceu na conversão de Cornélio (At 10,44-48; 11,16; 15,8-9). Há pessoas em que a presença do Espírito é mais atuante: Pedro (At 4,8), Estêvão (At 6,5), Barnabé (At 11,24), Ágabo (At 11,28; 21,11), Paulo (At 13,9), Apolo (At 18,25). O Espírito Santo faz de tudo, desde a redação do documento final do Concílio (At 15,28) até a definição do roteiro de viagem dos missionários (At 16,6.7); faz com que Estêvão tenha coragem de ir até o martírio (At 7,55); manda Pedro ir para casa de Cornélio (At 10,19; 11,12); conversa com Filipe e o leva de um lugar para outro (At 8,29.39); fala na comunidade apontando novo rumo de ação (At 13,2); envia Paulo e Barnabé em missão (At 13,4); anima Paulo a tomar decisão de voltar para Jerusalém (At 20,22); coloca pessoas para coordenar a comunidade (At 20,28); pelo Espírito os discípulos têm o pressentimento do que vai acontecer no futuro (At 20,22-23; 21,4). E apesar de tão manifesta, havia pessoas que resistiam à ação do Espírito e se recusavam a aceitar a evidência de Deus que se manifestava nos fatos (At 7,51).


 

Aspectos da novidade da vida no Espírito nos outros escritos no NT

A mesma presença avassaladora da “novidade do Espírito”(Rm 7,6) na vida das comunidades transparece nos escritos de João e nas cartas de Paulo, sobretudo nas cartas aos Romanos, Gálatas, Coríntios e Efésios. Toda a vida do cristão se realiza “em Cristo” e “no Espírito” (Rm 8,9-11). As duas expressões são quase sinônimos. O Espírito Santo é o Espírito de Jesus (Gl 4,6; Fl 1,19). Ele nos é dado pela ressurreição de Jesus (Jo 7,39). O cristão é templo de Cristo (Ef 2,21) e também é templo do Espírito Santo (Ef 2,22; 1 Cor 3,16; 6,19). O amor de Deus é derramado no coração pelo Espírito Santo (Rm 5,5), que socorre a nossa fraqueza, reza em nós (Rm 8,26-27), traz nova consciência de filiação (Rm 8,14-16), faz passar de escravo para filho (Gl 4,4-7). Tudo que o Cristão faz de bom é visto como fruto do Espírito: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (Gl 5,22-23). É o Espírito que distribui a variedade dos dons, serviços e carismas na comunidade, ele mantém a unidade e opera a diversidade (1 Cor 12,1-11). O dom maior é o amor (1 Cor 12,31; 13,13) e a liberdade (2 Cor 3,17: Gl 5,1.13). O que chama a atenção é a pouca menção do Espírito nas cartas pastorais a Timóteo e Tito, que representam um estágio de institucionalização das comunidades depois dos anos 70.


 

Um primeiro critério de discernimento

Esta descrição da vida no Espírito revela duas coisas aparentemente opostas entre si. De um lado, deixa perceber, ainda que de longe, o aspecto extraordinário da experiência do Espírito na vida das primeiras comunidades cristãs. Por outro lado, por mais extraordinária que tenha sido, a experiência do Espírito estava encarnada em ações ordinárias e comuns da vida humana: falar, caminhar, viajar, orientar, cantar, criticar, decidir, ficar alegre, crescer, anunciar, servir, etc. Com outras palavras, esta maneira de falar própria de Lucas sugere que o aspecto extraordinário da presença atuante do Espírito estava escondido no ordinário da vida de cada dia e era lá que devia ser descoberto pelo olhar da fé. No caso de uma pessoa recusar o ordinário e querer insistir só no extraordinário ou no mágico, ela era criticada e até condenada, como foi o caso de Simão Mago (At 8,9-24) e da comunidade de Corinto (1 Cor 14,1-40). Por isso as descrições da ação do Espírito na vida dos cristãos (de Lucas) revelou na chapa da experiência o que a olho nu não se percebia. Este tipo de leitura orante e crente da vida já era fruto de um esforço de compreensão e de discernimento. Temos aqui um primeiro critério de discernimento: o extraordinário do Espírito de Deus se esconde e se revela no ordinário e quotidiano da vida humana. Ou seja, a descrição da novidade do Espírito, sobretudo nos Atos dos Apóstolos, já era e continua sendo uma orientação para ensinar as comunidades como ler a vida e discernir dentro dela o rumo do Espírito Santo. E havia motivo para isto, pois havia muita falta de clareza com relação à ação do Espírito na vida das comunidades.


 

2. A surpresa da Novidade

A experiência da vida no Espírito foi uma explosão que ultrapassou todas as expectativas e categorias familiares! Uma total novidade, que surpreendeu até os próprios cristãos e provocava as reações mais diversas nas várias comunidades das diferentes regiões e etnias daquela época. Mas nem tudo que se dizia ser do espírito podia ser do Espírito de Deus, pois em nome do Espírito tomavam rumos opostos entre si. Nem tudo estava claro. Havia muitas dúvidas e não saber. Havia muitos espíritos, muitos problemas, tensões e divisões (1 Cor 1,10-13).

1. Os problemas e a diversidade dos Espíritos


 

1. Na comunidade da Samaria, havia Simão, convertido por Filipe. Quando viu que o Espírito Santo era dado pela imposição das mãos, ofereceu dinheiro para ele também poder distribuir o dom do Espírito e, assim, reforçar a sua liderança (At 8,9-19). Revela um desejo de controlar a ação do Espírito através do poder econômico.

2. Na comunidade de Tessalônica na Macedônia, algumas pessoas, orientadas por “profecias” (manifestações do Espírito) (2Ts 2,2), estavam convencidas de que o retorno de Jesus era iminente. Por isso, cruzavam os braços, não trabalhavam mais, achando que o fim estava perto, e “levavam uma vida à toa”, contrária à tradição recebida de Paulo (2Ts 3,6-12).

3. Na comunidade de Corinto na Grécia, algumas pessoas, impressionadas pelos dons do Espírito, queriam se promover dentro da comunidade através dos dons extraordinários, como o de falar em línguas, o que provocou bastante confusão (1 Cor 14,26-33). Outras pessoas da mesma comunidade, finalmente livre do jugo da lei, diziam: “Tudo me é permitido!” (1 Cor 6,12). Em nome da liberdade do Espírito, faziam o que bem entendiam e chegavam a atitudes que nem os pagãos tinham (1 Cor 5,1).

4. Na comunidade de Jerusalém na Judéia, cristãos ligados ao grupo dos fariseus, achavam que a porta de entrada na comunidade não era o dom do Espírito comunicado pelo batismo, mas sim a observância da lei de Moisés e a circuncisão (At 11,3; 15,1.5). Eles se baseavam na Escritura, o que era o mesmo que invocar o Espírito Santo, pois para eles toda a Escritura era inspirada por Deus (2Tm 3,16; cf. At 4,25).

5. Na comunidade de Éfeso na Ásia Menor, onde Timóteo era o coordenador, já bem depois do ano 70, infiltraram-se falsos doutores (1Tm 1,3.6) que interpretavam mal a Lei de Deus (1Tm 1,7) e declaravam más as coisas boas criadas por Deus (1 Tm 4,3-5). Tinham a aparência de gente piedosa (2Tm 3,5) mas na realidade faziam da piedade uma fonte de lucro (1Tm 6,5.9-10). Tinham um “espírito corrupto” (2Tm 3,8) e “sedutor” (1Tm 4,1).

6. Havia comunidades, como aquelas de Laodicéia (Ap 3,14-22), de Corinto (1 Cor 11,18-22) e da “diáspora” (Tg 2,1-13), onde o amor ao dinheiro provocava divisões, abafava a memória da ação de Jesus em favor dos pobres e onde o pobre Lázaro ficava sem ajuda diante da porta fechada do rico (Lc 16,19-31). O autor do Apocalipse convida a comunidade de Laodicéia a “escutar o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 3,22).

7. Em várias comunidades, tanto da Síria (Mateus) como da Grécia (Lucas), havia pessoas que se diziam “profetas” (cf. Mt 7,22), gostavam de coisas milagrosas e tinham o nome de Jesus nos lábios mas não na prática. Diziam “Senhor, Senhor!”, mas não se preocupavam em descobrir o rumo do Espírito e fazer a vontade de Deus (Mt 7,21-22; Lc 6,46; 13,26-27).

Não era fácil discernir. Havia muitos espíritos! Dentro da mentalidade e da cultura daquela época, o povo achava que os espíritos do mal das regiões celestiais estivessem operando na terra (Ef 6,12). Paulo dizia que havia espíritos diversos atuando dentro das comunidades (2 Cor 11,4; 1Ts 2,18; 2Ts 2,9). Ele achava que o espírito do príncipe deste mundo operava nos filhos da desobediência (Ef 2,2). O Apocalipse diz que o falso “profeta” chegava a infundir espírito na imagem da besta (Ap 13,11.15; 19,20). Havia pessoas que, em nome de “profecias”, anunciavam o contrário de Paulo e, assim, faziam a comunidade perder a “serenidade do Espírito” (2Ts 2,2). Por tudo isto, João manda examinar os espíritos para ver se são de Deus mesmo (1Jo 4,1). Pois havia pessoas com “espírito de erro” (1Jo 4,6), “espírito de escravo” (Rm 8,15), “espírito corrupto” (2tm 3,8), “espírito sedutor” (1Tm 4,1), “espírito de torpor” que impediam os olhos de perceber a ação do Espírito de Jesus (Rm 11,8). Portanto, não era pelo fato de alguém dizer que era inspirado por Deus, que a sua palavra já era fruto da ação do Espírito. A experiência mostrava (e continua mostrando) que muita gente já tinha sido enganada por falsos profetas (2Ts 2,2) com suas exclamações “Oráculo do Senhor!” (Jr 28,1-4;23,30-40).


 

2. A busca da causa e da solução


 

Esta variedade tão grande de tendência, ás vezes até opostas entre si, tinha a sua origem, em parte, na própria experiência da novidade do Espírito. A experiência de novidade era tão forte que levava as pessoas a romper com o passado e a esquecer o que ficou para trás. Chegava a ofuscar nelas a memória do próprio Jesus. O que agora marcava a vida delas era o novo começo, a nova criatura (Gl 6,15), o novo nascimento (Jo 3,3-7), a nova vida que, por assim dizer, tinha a sua origem em si mesma, trazia consigo a sua própria evidência e já não precisava prestar conta a ninguém. Era a liberdade total! “Tudo me é permitido!” (1Cor 6,12). O conflito crescente entre cristãos e judeus favorecia a ruptura com o passado. Mas esta experiência da absoluta novidade trazia em si o risco de a vida no Espírito ficar solta, desligada da história do povo e da pessoa de Jesus, e tornar-se uma vida livre sem rumo certo, como se vê acontecer até hoje. De fato havia pessoas que já não confessavam Jesus e ficavam só com o Espírito (1Jo 4,1-3; 5,12). Em nome do Espírito diziam: “Jesus deve ser excluído!” (1Cor 12,3). “Há muitos sedutores que não confessam que Jesus Cristo veio na carne” (2Jo 7). E parecia ser gente que ia de casa em casa perturbando as pessoas (2Jo 10).

A surpresa da novidade da vida no Espírito, desencadeada pela experiência da ressurreição e pela difusão tão rápida das comunidades nas periferias das grandes cidades do império, contrastava com a vida das comunidades mais tradicionais das sinagogas e se assemelha um pouco com a difusão acelerada e desencontrada das atuais igrejas pentecostais frente às igrejas mais tradicionais.

Diante disso tudo, o problema maior não consistia em saber o que é certo ou o que é errado. Neste caso, o critério ainda seria nosso. Tratava-se de saber como descobrir se um determinado espírito era ou não era de Deus? Como discernir o rumo do Espírito de Deus, que se manifestava nas pessoas e nas comunidades? Como sintonizar com ele e colocar as velas do barco da comunidade no rumo do Espírito? Quais os critérios?

Uma coisa são os critérios que, nos vários casos, orientavam os primeiros cristãos a discernir os espíritos. Outra é o quadro de referências, dentro do qual procuravam descobrir os critérios. Os critérios de discernimento ou as descrições da ação do Espírito, espalhadas pelas páginas do NT, são muitas e variadas, diferentes de acordo com a situação e o problema que se enfrentava. Cada novo problema ajudava a explicitar algum novo aspecto da ação do Espírito. Assim surgiu aquela variedade que até hoje transparece nos escritos de Lucas, de Paulo e de João na maneira de cada um deles descrever a ação do Espírito. O quadro de referências, porém, aparece menos. Ele é como a parede que fica escondida atrás dos quadros que nela se penduram, ou como a terra que fica coberta pelas plantas que nela crescem. Mas é a parede que sustenta os quadros. É a terra que produz as plantas. É o quadro de referências que produz e sustenta os critérios de discernimento.

Como veremos, o quadro de referências nascia de uma dupla intuição da fé dos primeiros cristãos. De um lado, a novidade do Espírito deve ser acolhida como manifestação e apelo de Deus. A liberdade gerada pelo Espírito, mesmo surpreendente e incômoda, não pode ser reduzida ao tamanho das categorias conhecidas e familiares do passado, nem pode ser neutralizada em nome da volta à grande disciplina. De outro lado, a novidade do Espírito não pode ficar solta. Ela deve encontrar o seu rumo. O rumo do Espírito, porém, não depende de nós nem pode ser imposto por nós, mas deve ser buscado nas experiências e categorias familiares do passado, tanto do passado remoto da história do AT, como do passado recente, vivido com Jesus.

Numa palavra, o quadro de referências consistia na intuição de fé de que existe uma unidade entre o AT, a prática de Jesus e a vida no Espírito das Comunidades. A prática de Jesus e a vida no Espírito, ambas são manifestações do único Projeto de Deus que já vinha desde o AT mas que agora entrou na sua fase definitiva. A consciência desta unidade, de um lado, ajudava as comunidades a sintonizar o rumo do Espírito e a encontrar os critérios de discernimento. De outro lado, criava o espaço para o Espírito poder atuar nas comunidades, transfigurá-las na imagem de Jesus e, assim, através delas, realizar o Projeto de Deus (2Cor 3,18).

       
2o Nível
        O esforço de compreensão
        O quadro de referências que vem do passado já vivido


 

As afirmações do NT sobre a ação do Espírito Santo são como um rio imenso, em que se misturam muitas afluentes de origem variada, vindas do AT e do contexto cultural da época. Veremos brevemente três destas afluentes, as que mais ajudaram os primeiros cristãos a descobrir o alcance e o rumo da ação do Espírito: 1. A ação da Ruah, traduzida pela nossa palavra espírito; 2. A ação do Go’êl, o defensor ou advogado do povo; 3. A visão apocalíptica dos dois mundos, o mundo de cima e o mundo de baixo.


 

1. A ação da Ruah, traduzida pela nossa palavra Espírito


 

1. A ação da Ruah nas criaturas

Na nossa língua, a palavra Espírito é do gênero masculino e faz pensar num ser pessoal, espiritual ou em um intelecto, alma, de uma pessoa em oposição ao seu ser corporal. No AT, a palavra Ruah é feminina e não fazia pensar num ser espiritual de esfera superior, nem em intelecto ou em alma. A palavra Ruah tem dois significados básicos: 1. Um primeiro ligado ao fenômeno natural do vento, ar, brisa, tempestade; 2. Um outro, ligado ao fenômeno da respiração, fôlego, hálito, alento. A Ruah propriamente dita não se identifica com estes fenômenos, mas indica algo que se encontra em todos eles, a saber, o estar em movimento; movimento que ela recebe não de fora, mas sim de uma energia que existe dentro dela. A Ruah é uma energia em movimento. Mas não um movimento qualquer! O movimento da Ruah tem, dentro de si, um rumo, uma direção definida. Nós percebemos a direção da Ruah no movimento que ela produz, por exemplo, no vento do Norte ou do Sul, mas não conhecemos nem controlamos a causa interna a partir da qual a Ruah, o espírito, se movimenta nesta ou naquela direção. E “ela não só se move, mas põe outras coisas em movimento. Deste modo, torna visível a energia misteriosa que nela atua” (Westermann). Ninguém é o senhor da Ruah, diz Qohelet (Qo 8,8). Jesus expressou o sentido da Ruah na conversa com Nicodemos: “O espírito sopra onde quer e você ouve o seu ruído, mas você não sabe de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do espírito” (Jo 3,8).

O que mais caracteriza a Ruah é a sua liberdade. O vento, o espírito, é livre, não pode ser controlado. Ele age sobre os outros e ninguém consegue agir sobre ele. Sua origem é mistério, seu destino é mistério. O barqueiro deve, primeiro, descobrir o rumo do vento. Depois, deve colocar as velas de acordo com este rumo. Uma descrição muito bonita da mobilidade e da liberdade da Ruah, pneuma ou espírito, encontra-se no livro de Sabedoria (Sb 7,22-27).

O espírito, a Ruah, é também a energia que se manifesta dentro da respiração. É aqui que aparece um terceiro significado básico da palavra Ruah, no sentido de sopro de vida, energia de viver, força de ânimo, resistência (Gn 6,17; 7,15). Indica o mais íntimo e o mais profundo do ser humano, o seu “espírito”, a busca do seu coração em direção a Deus (Sl 77,4.7). É a energia ou o movimento que a pessoa sente dentro de si, como um impulso que a anima, inspira, empurra: paixão furor, ira, coragem, resistência. É na hora de morrer que entregamos esta Ruah que nos faz viver: “Em tuas mãos entrego o meu espírito” (Sl 31,6; Lc 23,46; At 7,59)

A Ruah, mesmo sendo energia, é frágil e pode quebrar dentro da pessoa (Sl 51,19; Is 57,15). Sansão perdeu a Ruah mas depois a readquiriu (Jz 15,19). Pode até ser que uma ruah estranha suba de dentro da gente, como em Saul (1 Sam 16,14). A música tocada por Davi ajudava pois a expulsar a má ruah de dentro dele (1 Sam 16,16.23). Aqui já aparece a necessidade de discernir os espíritos.


 

2. A ação da Ruah de Deus Criador

Como toda ruah, também a Ruah ou Espírito de Deus é uma energia em movimento e, como tal, tem o seu rumo, o seu projeto. Mas “você não sabe de onde vem nem para onde vai” (Jo 3,8). O rumo do Espírito de Deus se manifesta na criação e na história. É lá que deve ser descoberto pela busca humana. Com efeito, o Espírito de Deus esteve presente na criação sob a forma de uma ave (pomba) em movimento pairando por cima das águas do caos (Gn 1,2). A Ruah de Deus coloca toda a natureza em movimento conforme a seqüência das estações e a renova, ano após ano (Sl 104,30). É ela, a Ruah, que provoca o degelo no início da primavera (Sl 147,18). O Espírito da Sabedoria de Deus enche a natureza toda e governa todas as coisas (Sb 8,1).

A Ruah, enviada por Javé, está presente também na história. Ela fez recuar o Mar Vermelho (Ex 14,21) e trouxe os codornizes para o povo comer (Nm 11,31). Esteve com Moisés e, a partir dele, se distribuiu nas lideranças do povo (Nm 11,24-25). Tomava posse dos líderes e os levava a ações libertadoras: Otoniel (jz 3,10), Gedeão (Jz 6,34), Jefte (Jz 11,29), Sansão (Jz 13,25; 14,6.19; 15,14), Saul (1 Sam 11,6) e Débora, profetisa (Jz 4,4). Esteve presente no grupo dos profetas e agia neles como força contagiosa (1 Sam 10,5-6.10). Sua ação nos profetas produziu inveja nos outros, mas Moisés reagiu: “Oxalá todo o povo fosse profeta e recebesse a Ruah de Javé!” (Nm 11,29). O Deutero-Isaías relê toda a história como conduzida pelo Espírito de Deus (Is 63,10-15).

Na época do Êxodo, a força do Espírito irrompia nos Juizes, capacitando-os para ações especiais e temporárias. Depois da entrada da monarquia, a Ruah de Deus se transmite não mais de maneira espontânea e inesperada, mas sim através da unção (1 Sam 16,13) e da imposição das mãos (Dt 34,9). A posse da Ruah fica ligada à transmissão do cargo e se torna uma força permanente, o que suscita a tentação de querer controlar a sua ação em favor dos interesses da monarquia. Assim surgem os profetas da corte que gritam “Oráculo de Javé!” para dizer coisas do agrado do rei (Jr 28,2-4). E este abuso foi tão nefasto para o destino da nação que se chegou a prevenir as pessoas contra a profecia (Jr 23,30-40; Zc 13,2-6). Talvez seja por isso que a palavra Ruah apareça tão pouco na boca e na ação dos grandes profetas da época da monarquia.

A frustração sofrida por causa da monarquia fez crescer a esperança de um rei, um ungido (messias), fiel e justo. Paralelamente, cresceu a dupla esperança de que a Ruah de Deus orientasse o Messias na realização do projeto de Deus (Is 42,1-9) e descesse sobre todo o povo de Deus (Ez 36,27; 39,29; Is 32,15; 44,3). Trata-se da grande promessa para o futuro que transparece de várias maneiras nos profetas do exílio: a visão dos ossos secos, ressuscitados pela força da Ruah de Deus (Ez 37,1-14); a efusão da Ruah de Deus sobre todo o povo (Jl 3,1-5); a visão do Messias-Menino que terá a plenitude do dom do Espírito (Is 11,1-9); a visão do Messias-Servo que será ungido pelo Espírito para estabelecer o direito na terra e anunciar a Boa Nova aos pobres (Is 42,1; 44,1-3; 61,1-3). Eles vislumbram um futuro sem rei, em que o povo renasce, cada vez de novo, pela efusão do Espírito no coração do próprio povo (Ez 36,26-27; Sl 51,12; cf. Is 32,15-20).

A ação da Ruah descrita no AT é o pano de fundo para entender o que o NT afirma sobre a vida no Espírito às primeiras comunidades. O fato de os primeiros cristãos designarem a novidade de sua experiência com a palavra Ruah, espírito, revela duas coisas: 1. A convicção de que a ação do Espírito não pode ser controlada. Ela exige total obediência. O Espírito não é nosso; nós é que somos dele! 2. A consciência de que na experiência do Espírito das comunidades se realiza o que o AT anunciava sobre a futura ação do Espírito Santo (At 2,16-21). O prometido do Pai chegou (Lc 24,29). Eles, agora, são o novo povo de Deus que nasceu do Espírito. É sobretudo Lucas que transmite esta convicção nos seus dois livros. Para ele, o dia de Pentecostes marca o início deste novo tempo: serão todos envolvidos, renascidos e recriados pelo Espírito. Na maneira de descrever a ação do Espírito, Lucas sugere a continuidade. Aquelas mesmas coisas que o Espírito já fazia no AT ele continua fazendo na história das comunidades descrita nos Atos dos Apóstolos: falar, rezar, caminhar, viajar, orientar, cantar, criticar, decidir, ficar alegre, crescer, anunciar, servir, etc. Deste modo, Lucas ajudava as comunidades a reler o AT a partir da sua vida no Espírito. É relendo e investigando o AT com o olhar recebido da vida no Espírito que elas descobriam o rumo do Espírito, o Projeto de Deus. Eles não liam o presente à luz do passado, mas reliam o passado à luz da sua nova vida no presente.


 

2. A ação do Go’êl, o defensor do povo

No NT, sobretudo no Evangelho de João, tanto Jesus como o Espírito de Jesus, ambos recebem o título de Go’êl, palavra hebraica, que recebe traduções variadas: aquele que resgata, paráclito, defensor, advogado, redentor, libertador, salvador, parente próximo (1 Jo 2,1; Jo 14,16; 16,9).

A palavra Go’êl tem a sua origem numa prática secular, vinda da época tribal. Naquele tempo, o clã era a base da convivência social, a garantia da posse da terra, o veículo principal das tradições, a defesa da identidade do povo. Defender o clã era o mesmo que defender a Aliança do povo com Deus. A lei do Go’êl era uma lei de solidariedade que surgiu como instrumento para defender as famílias e as pessoas através do fortalecimento do clã. Ela nasceu da convicção, própria de Israel, de que tanto a terra como as pessoas são propriedade de Javé, e por isso, não podem ser vendidas nem compradas para sempre. Isto trazia consigo uma determinada ordem social. No caso de esta ordem social ser perturbada, entrava em ação o Go'êl, o defensor, o advogado, o vingador, para restabelecer o direito prejudicado. Assim, no caso de um assassinato, o parente mais próximo da vítima era obrigado a ser Go'êl, isto é, devia vingar o sangue do morto (Nm 35,19; Dt 19,12; Js 20,1-6). Além disso, no caso de uma pessoa em situação de pobreza ser obrigada a vender a sua terra ou a entregar seus familiares como escravos, o parente mais próximo era obrigado a assumir a missão de Go'êl para resgatar a terra ou a pessoa (cf. Lv 24,23-55). Daí que a palavra Go'êl foi assumindo o sentido de parente próximo, irmão mais velho. O resgate das pessoas e da terra ficou ligado à celebração do ano do jubileu (Lv 25,8-17).

Na época do exílio da Babilônia (587-538), já não havia mais possibilidade de aplicar a lei, pois todo o povo estava no cativeiro, inclusive o parente mais próximo. Não havia mais Go'êl para fazer o resgate. Foi aí que a nova experiência de Deus dos discípulos e das discípulas de Isaías retomou o termo antigo num sentido novo. O próprio Deus era visto por eles como o Go'êl, o redentor, aquele que resgata o seu povo (Is 41,14; 43,14; 44,6.24; 47,4; 58,17 etc.). Foi neste contexto do cativeiro que o termo Go'êl associou elementos novos e abriu o seu significado para a vivência da fé. Em torno a ele se concentrou a esperança messiânica: no futuro, Deus vai resgatar o seu povo. O messias vai ser o Go'êl do povo (Rt 4,14).

De fato, um dos títulos mais antigos e mais bonitos para descrever a missão de Jesus foi exatamente o de Go'êl. Jesus é o parente próximo, o irmão mais velho que assumiu a defesa e o resgate de sua família, do seu povo, da humanidade. Ele é o redentor, o salvador, que veio restabelecer os direitos pisados dos pobres. Veio ajudar seus irmãos e suas irmãs, para que pudessem viver novamente em fraternidade. São Paulo o expressa na carta aos Gálatas quando diz: “Ele me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

É sobretudo João que recorre a este termo para esclarecer a ação do Espírito Santo na vida das comunidades. Na sua carta, ele diz que temos um “advogado junto do Pai” (1 Jo 2,1), e no Evangelho, aplica o mesmo termo ao Espírito Santo. Jesus não nos deixa órfãos, mas pedirá ao Pai, para que mande um outro paráclito, que possa permanecer conosco sempre (Jo 14,14-18.26). Este nos defenderá nos tribunais (Jo 15,26; Mc 13,11) e no grande julgamento da história (Jo 16,7-8).

O uso do título Go'êl para descrever a ação tanto de Jesus como do Espírito de Jesus na vida das comunidades revela um outro critério de discernimento. A ação do Espírito é uma ação de solidariedade e de reconstrução do povo. Ele leva os cristãos a resgatar, a libertar, a restabelecer os direitos pisados dos pobres e, assim, a continuar a missão de Jesus (Jo 20,21; Lc 4,18-19). Ajuda a manter a vida da comunidade em contato estreito com a vida do povo, sobretudo dos pobres.


 

3. A visão apocalíptica dos dois mundos


 

No discurso do dia de Pentecostes, Pedro afirma que Jesus, depois de morrer na cruz, não foi abandonado na morada dos mortos, mas foi exaltado pela direita de Deus e dele recebeu o Espírito prometido para derramá-lo sobre os discípulos e as discípulas (At 2,31-33). Nesta maneira de falar, transparece a visão dos dois mundos, duas esferas de ação: o mundo de cima e o mundo de baixo, que é subentendida em todo o NT e é o substrato de muitas afirmações sobre o Espírito Santo.

Na visão apocalíptica dos dois mundos, o mundo real, duradouro, verdadeiro ou eterno é o mundo lá de cima, onde está o Trono do Juiz que preside o julgamento da humanidade. Diante dele estão o promotor que acusa, o Satanás, e o advogado que defende, o Go'êl. Tudo que se passa no mundo cá de baixo não tem consistência em si mesmo, mas é apenas um reflexo do que acontece no mundo lá de cima. O que importa é saber ler o sentido verdadeiro e escondido dos fatos do mundo cá de baixo. A visão apocalíptica ajuda a tirar o véu (re-velar = apocalipse) e a interpretar os fatos.

Jesus, o advogado, veio do mundo lá de cima e se encarnou no mundo cá de baixo. Através da sua vitória sobre a morte, voltou para o mundo de cima (cf. Fl 2,6-11; Jo 1,1-18), tomou assento à direita do Juiz e derrubou o grande adversário, o Satanás, pois destruiu o título da dívida que nos acusava diante de Deus, pregando-a na cruz (Cl 2,14). Deste modo, despojou o acusador, o Satanás, da sua função (Cl 2,15). Então Miguel e seus anjos empurraram o Satanás para fora do mundo de cima (Ap 12,7-9). Esta vitória de Jesus no mundo lá de cima é a chave para entender tudo que se passa no mundo cá de baixo.

O mundo cá de baixo, em que nós vivemos, tornou-se o campo de batalha dos personagens do mundo lá de cima. O espírito do príncipe deste mundo (Jo 12,31; 16,11; Ef 2,2; 6,12), depois que foi derrubado do mundo lá de cima, foi cair no mundo cá de baixo, onde começou a perseguir o povo de Deus (Ap 12,13-17). Mas Jesus, o defensor, veio ajudar. É sobretudo João que desenvolve esta idéia. Do mundo de cima, Jesus enviou o seu Espírito vitorioso para ser o Go'êl, “o outro paráclito” (Jo 14,16), o defensor permanente de seus irmãos e irmãs contra os ataques do Acusador. “Se eu não for, o Paráclito não poderá vir até vocês, mas se eu for, eu o mando até vocês” (Jo 16,7). O Espírito de Jesus veio para completar aqui em baixo a vitória já alcançada no mundo lá em cima. Através da ação do Espírito, presente nas comunidades, a vitória de Jesus vai penetrando e se revelando no mundo cá de baixo.

São dois mundos atuando em nós: o mundo de cima e o mundo de baixo, a Vida e a Morte, o Espírito e a Carne, o Espírito do Go'êl (Jesus) e o espírito do príncipe deste mundo. Este é o pano de fundo de muitos trechos das cartas de Paulo. Esta luta envolve os cristãos. Eles passam pelo mesmo processo de morte e ressurreição pelo qual passou Jesus. Para poder resistir e vencer, devem revestir a armadura de Deus (Ef 6,13). Pelo batismo, já morremos ao mundo cá de baixo e ressuscitamos para a vida do mundo de cima (Rm 6,4-11; 8,11; Gl 6,14). Já recebemos o Espírito, penhor, garantia e semente do mundo de cima, da vida verdadeira, real, eterna, (2 Cor 1,22; Rm 8,10-13). “Quem semear na carne colhe corrupção, quem semear no Espírito colherá a vida eterna” (Gl 6,8). É o Espírito de Jesus que nos ajuda a fazer este mesmo caminho (2 Cor 5,1-5).

O recurso à visão dos dois mundos revela um outro critério de discernimento. O Espírito de Jesus nos engaja numa luta maior e mais ampla do que nós mesmos. Ele impede que a pessoa se feche numa visão individualista que encerra a vida entre nascimento e morte.


 

4. Conclusão


 

Estas são as três afluentes do AT que, misturadas entre si, são usadas no NT. Há outras imagens do AT usadas para descrever a ação do Espírito. Lembremos só algumas:

1. O Espírito que desce como pomba sobre as águas do batismo (Lc 3,22) evoca o começo da criação (Gn 1,2). Sugere o começo da nova criação, iniciada pela ação do Espírito. A figura da pomba evoca também a pomba da arca de Noé (Gn 8,10-11). Através de Jesus, o Espírito vai dar continuidade à aliança de Deus com a vida, concluída depois do Dilúvio (Gn 9,8-11).

2. O barulho de vento, as línguas de fogo e o tremor da casa no dia de Pentecostes (At 2,2,), evocam os sinais da conclusão da Aliança no Monte Sinai (Ex 19,16-18). Sugerem que o Espírito iniciará a realização da nova Aliança concluída por Jesus. As línguas de fogo evocam também o fogo que Elias fez descer do céu para provar que Javé é o Deus verdadeiro (1 Rs 18,38). O Espírito fará com que a humanidade chegue a reconhecer o verdadeiro Deus que se revelou em Jesus.

3. A reunião dos povos ao redor dos apóstolos no dia de Pentecostes e a superação da barreira das línguas (At 2,5-12) evoca a confusão das línguas que aconteceu por ocasião da construção da Torre de Babel (Gn 11,1-9) e sugere que, através da ação do Espírito, iniciou-se a reversão do processo de dispersão.

Concluindo: O recurso a imagens e símbolos familiares do AT e do contexto cultural da época ajudava os primeiros cristãos a descobrir e a discernir o rumo do Espírito e situá-lo dentro do conjunto da história da salvação. A novidade da vida no Espírito, por maior que ela seja, não permite que se provoque uma ruptura com o passado já vivido. Os primeiros cristãos se comportavam como legítimos herdeiros (Rm 8,17). Davam continuidade impedindo de levantar vôo e perder o contato com a realidade concreta da vida do povo.

O desafio que transparece aqui para nós é o seguinte: como fazer hoje o que eles fizeram naquele tempo? Como reler o nosso passado à luz da experiência atual do Espírito? Como encontrar símbolos e imagens familiares da nossa cultura e do nosso passado que nos ajudem a descobrir e a discernir o rumo do Espírito? Como manter a unidade entre a história dos povos da América Latina e a experiência da vida no Espírito das nossas comunidades?


        3a Nível
       
O esforço de discernimento
        O quadro de referências que vem da prática de Jesus


 

Paulo afirma: “Mesmo se conhecemos Cristo segundo a carne, agora já não o conhecemos assim” (2 Cor 5,16-17). João afirma: “Muitos sedutores que não confessam que Jesus Cristo veio na carne se espalharam pelo mundo” (2Jo 7). Parece uma contradição, mas não é. Paulo falava contra os que insistiam na importância da “carne”, isto é, raça, circuncisão, lei, para poder participar da salvação que Jesus trouxe. Eles queriam reduzir a vida no Espírito ao tamanho das categorias do passado. Para Paulo, o critério básico é este: “Se alguém está em Cristo é nova criatura! Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2 Cor 5,17). João falava contra os que insistiam tanto na novidade da vida no Espírito, que chegavam a declarar ser desnecessário “confessar que Jesus veio na carne” (1 Jo 4,3). Nesta polaridade transparecem a consciência de fé dos primeiros cristãos e o critério básico da busca do rumo do Espírito.


 


 

1. O critério básico: o Espírito que anima as comunidades é o Espírito de Jesus


 

A raiz das afirmações do NT sobre a ação do Espírito é esta: o Espírito que se manifesta nas comunidades com tanta variedade não é outro a não ser o Espírito de Jesus. Existe uma quase identidade entre “vida no Espírito” e “vida em Cristo”. São Paulo diz: “O Senhor é o Espírito, e onde se encontra o Espírito do Senhor aí está a liberdade!” (2 Cor 3,17). Ou seja, é a ligação com a pessoa de Jesus que dará rumo e sentido à liberdade que nasce do Espírito. Bem concretamente, é a prática de Jesus de Nazaré que serve de critério para discernir os espíritos que se manifestam na vida das comunidades. E João adverte: “Caríssimos, não acreditem em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se são de Deus, pois muitos falsos profetas já apareceram no mundo. Nisto vocês reconhecem se um espírito é de Deus: todo espírito que confessa que Jesus veio na carne é de Deus. Todo aquele que não confessa Jesus, não vem de Deus!” (1Jo 4,1-3). As comunidades devem manter a unidade entre a vida no Espírito e a prática de Jesus de Nazaré. Não podem ficar só com a novidade do Espírito, pois a raiz do Espírito é a ressurreição de Jesus (Jo 7,38-39).

Foi a preocupação em manter esta unidade que levou os cristãos a conservar a incômoda memória das palavras e gestos de Jesus. Daí a insistência de Paulo em que todos tenham os mesmos sentimentos que animaram a Jesus (Fl 2,5). E o que caracteriza o sentimento de Jesus é o fato de ele, mesmo sendo de condição divina, ter-se esvaziado e ter assumido a condição humana de empregado (Fl 2,6-8). João diz que uma das funções principais do Espírito é lembrar tudo o que Jesus falou (Jo 14,26). O Espírito não fala a partir de si mesmo, mas só fala o que recebe de Jesus (Jo 16,12-14). Mas é sobretudo Lucas que acentua a ação do Espírito na vida de Jesus. O mesmo Espírito que os cristãos experimentavam nas comunidades já atuava em Jesus, desde a concepção (Lc 1,35) até à hora da sua morte, em que entregou o Espírito ao Pai (Lc 23,46). Para conhecer o rumo do Espírito de Jesus é necessário olhar sempre a ação do Espírito na vida de Jesus. Lucas mostra que Jesus é o Messias-Servo, ungido pelo Espírito para anunciar a Boa Nova de Deus aos pobres (Lc 4,18). É da prática de Jesus que os cristãos ficam sabendo qual o rumo que o Espírito quer tomar na vida das comunidades.

Aqui e acolá, aparece hoje a mesma tendência em querer ficar só com o Espírito, só com Jesus ressuscitado, “Jesus Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). Jesus de Nazaré com a sua prática e cruz é espiritualizado e, assim tende a ser desligado da situação concreta do povo. A dinâmica “ver-julgar-agir”, própria de Lucas, perderia o seu significado. Mas o Jesus de “hoje e sempre” é o mesmo de “ontem”, aquele que morreu. Só ressuscita quem morre primeiro!

A leitura ou releitura que faziam do AT também era para mostrar que o Espírito de Jesus já estava atuando desde o começo da história. Eles chegam a dizer que, lá no deserto, o povo já bebia a mesma bebida do espírito, pois a rocha de onde saía a água era Cristo (1 Cor 10,3-4). Para o autor da carta aos Hebreus, Abraão já tinha fé na ressurreição, pois teve a coragem de obedecer a Deus para sacrificar seu filho (Hb 11,17-19). É no AT que encontravam os critérios para poder discernir o rumo do Espírito de Jesus em suas vidas.


 

2. O critério do amor que nos vem da prática de Jesus


 

Falando dos dons do Espírito, Paulo insiste em dizer que o dom maior é o amor, agaph (1 Cor 12,31; 13,13). O amor é o critério que resume e concretiza todo o ensinamento, tanto de Jesus (Jo 15,12-14) como da lei e dos profetas (Mt 22,40). É a observância da lei do amor que mantém a unidade entre a vida no Espírito e a prática de Jesus. É a agaph, isto é, a capacidade de criar laços de amor, ou, como diz a Bíblia, a capacidade de reconduzir o coração dos pais para os filhos e reconduzir o coração dos filhos para os pais (Ml 3,24; Eclo 48,8; Lc 1,17), ou seja a capacidade de reconstruir a comunidade, o tecido social dentro das normas do amor, esta capacidade é o critério mais importante para discernir se o espírito que anima esta ou aquela pessoa, esta ou aquela comunidade, é realmente o Espírito de Deus, de Jesus. O amor verdadeiro dá rumo á liberdade. O dom do Espírito, definido por Paulo como “autodomínio” (Gl 5,23), não nega a liberdade, mas é a sua mais alta expressão, pois ordena, organiza e disciplina todas as ações a favor da vida. Para saber como deve ser a prática deste amor, eles conservam os gestos e as palavras de Jesus, compilados nos quatro evangelhos. “Amou-os até o fim!” (Jo 13,1). Os evangelhos ensinam o que fazer para poder ter sempre dentro de si o mesmo sentimento que animou Jesus (Fl 2,5).

E o que é que vem a ser, bem concretamente, o agaph, o amor? O apóstolo Paulo tentou dizê-lo comparando o amor com os outros serviços e dons do Espírito que atuam na comunidade: “Posso ter o dom das línguas” ter grande poder de comunicação e de louvação. “Posso ter o dom da profecia”, animar a comunidade e fazer grandes denúncias. Posso ter o dom do conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência”, ter a doutrina certa e uma fé milagrosa. Posso distribuir os meus bens aos famintos”, fazer a opção pelos pobres e dar tudo a eles. “Posso até entregar o meu corpo às chamas”, ser preso e torturado; mas sem o amor, “isto nada me adiantaria” (1 Cor 13,1-3).

Todas estas coisas tão importantes revelam o Dom do “amor de Deus que foi derramado no coração pelo Espírito” (Rm 5,5), mas não o esgotam nem o definem. O amor é um Dom que está na raiz de tudo isto e o ultrapassa! Então, o que é o amor? Paulo não responde, mas cita a letra de um canto da comunidade que descreve a ação do amor no quotidiano da vida e oferece uma chave para cada membro da comunidade poder avaliar se na sua vida existe ou não este amor. É pelo fruto que se conhece a árvore, é pela prática do amor que se conhece o Espírito. Eis a letra, cuja luz ajuda a andar no escuro:


O amor é paciente
O amor é prestativo
Não é invejoso
Não se ostenta
Não se incha de orgulho
Não faz nada de inconveniente
Não procura seu próprio interesse
Não se irrita
Não guarda rancor
Não se alegra com a injustiça
Mas se regozija com a verdade
Tudo desculpa
Tudo crê
Tudo espera
Tudo suporta
O amor jamais passará” (1Cor 13,4-8)
 

Paciente é o amor
e prestativo
como um colo materno.
Não tem inveja nem se vangloria.
Não busca o interesse
como fazem os bancos:
sabe ser gratuito e solidário
como a mesa da Páscoa.
Não compactua nunca com a injustiça, nunca!
Faz festa da verdade.
Sabe esperar, forçando corajoso
as portas do futuro.
O amor não passará, passando
tudo o que não seja ele.
Na tarde desta vida nos julgará o amor”
(Dom Pedro Casaldáliga).


 

3. Critérios de discernimento que nos vêm da prática das comunidades


 

No fim de cada uma das sete cartas do Apocalipse se diz: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas!” (Ap 2,7.11.17.29; 3,6.13.22). A fala do Espírito não são normas preestabelecidas, mas são os apelos de Deus que aparecem quando se ilumina a situação concreta da comunidade com a luz que vem da prática de Jesus e do Projeto de Deus. A raiz comum da grande variedade de critérios de discernimento dos espíritos que se encontram espalhados nas linhas e nas entrelinhas dos escritos do NT é a intuição da fé que quer manter a unidade entre o Projeto de Deus do AT, a prática de Jesus de Nazaré e a vida no Espírito das comunidades. Nestes critérios transparece o rumo que os primeiros cristãos atribuíam ao Espírito de Jesus. Sabendo qual o rumo, o barqueiro saberá o que fazer para colocar a vela do barco na direção do vento. Eis uma lista de alguns critérios da ação do Espírito Santo. Eles concretizam a prática de Jesus para a vida das comunidades.

1. Ressuscita e gera vida.

“O Espírito é vida” (Rm 8,10). “A letra mata, é o Espírito que dá vida!” (2Cor 3,6; cf. Rm 6,8-10; 8,2.11). “O último Adão (Jesus) tornou-se Espírito que dá vida!” (1Cor 15,45).

2. Liberta e defende.

É para a liberdade que Cristo nos libertou!” (Gl 5,1). “Onde há o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Cor 3,17). “O Pai vos dará um outro defensor, para que permaneça convosco para sempre” (Jo 14,16). Quando acusado nos tribunais “o Espírito vos ensinará o que deveis dizer” (Lc 12,12; Mc 13,11).

3. Reconcilia e perdoa

Recebei o Espírito Santo. Os pecados daqueles que vocês perdoarem serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados” (Jo 20,22-23). “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete!” (Mt 18,22).

4. Acolhe, cura e faz a pessoa ficar inteira

A outro o único e mesmo Espírito concede o Dom das curas” (1 Cor 12,9). O acolhimento e o perdão reintegram a pessoa, eliminam a somatização dos problemas e produzem a cura.

5. Unifica e congrega

A comunhão no Espírito” (Fl 2,1). “Procurem conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4,3). “Judeus e gregos, num só Espírito temos acesso ao Pai” (Ef 2,18). “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28; Ef 2,19-22; At 2,8-11).

6. Edifica e constrói a comunidade.

“Cada um recebe o Dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos” (1 Cor 12,7). “Que tudo se faça para a edificação!” (1 Cor 14,26). A imagem do corpo simboliza uma unidade que mantém a diversidade (1 Cor 12,14-21).

7. Instrui e ensina a verdade

“Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena” (Jo 16,13). “Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo que eu vos disse” (Jo 14,26; cf 1Cor 2,11-12).

8. Ajuda a interpretar a Bíblia

“Todas as vezes que lêem Moisés, um véu está sobre o seu coração. É somente pela conversão ao Senhor que o véu cai” (2 Cor 3,15s; 1Cor 10,1-13). “Vocês são uma carta de Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo” (2 Cor 3,3).

9. Ajuda a ler a realidade.

Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para formar na justiça, a fim de que o homem e a mulher de Deus sejam perfeitos, qualificados para toda boa obra” (2 Tm 3,16). “A espada do Espirito é a Palavra de Deus (Ef 6,17; cf. Jo 6,63).

10. Envia em missão para anunciar a Boa Nova aos pobres

O Espírito está sobre mim porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres, a libertação aos presos e a recuperação da vista aos cegos” (Lc 4,18). Oculta o Reino aos sábios e o revela aos pequenos (Lc 10,21). Lucas, o evangelista que mais insiste na ação do Espírito nas comunidades, é também o que mais insiste nos pobres e na opção pelos pobres.

11. Fortalece, dá coragem e faz anunciar

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo, continuando a anunciar com coragem a Palavra de Deus” (At 4,31). “Repleto do Espírito Santo, ele falava” (At 4,8; 7,55). “Não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com o qual ele falava” (At 6,10).

12. Consola e faz orar e cantar

“Orai em todo o tempo no Espírito!” (Ef 6,18). “Falai uns aos outros com salmos e hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração, sempre e em tudo dando graças a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5, 19-20; Cl 3,16). “Prestamos culto pelo Espírito de Deus” (Fl 3,3).

13. Ora, geme, interioriza e identifica

Recebestes um espírito de filiação pelo qual clamamos Abba, Pai. O próprio espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm 8,15-16). “O espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). “O Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem (Lc 11,13; At 23,31).

14. Faz participar do mistério de Cristo

Pelo batismo fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentro os mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova” (Rm 6,4-11). “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais mediante o seu Espírito que habita em vós” (Rm 8,11; Fl 3,9-11).

15. Pode ser apagado

Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias. Discerni tudo e ficai com o que é bom!” (1Ts 5,10-20). “Não entristeçais o Espírito Santo pelo qual fostes selados para o dia da redenção (Ef 4,30).

A unificação de todas estas afirmações tão variadas sobre a ação do Espírito numa única síntese só se completou bem depois do período do NT. Por isso, não é bom querer harmonizá-las. Paulo, João e Lucas, cada um a seu modo, tentam interpretar o alcance da vida no Espírito. A variedade faz ver a riqueza.


 

4. Um caso concreto de discernimento na comunidade de Corinto.


 

É por causa dos problemas que surgiram na comunidade de Corinto em torno do Dom das línguas (1 Cor 14,1-38), que Paulo resolve escrever sobre “os dons do Espírito” (1Cor 12,1). Isto quer dizer que a fala de Paulo sobre este assunto não se refere a uma situação normal. Nas outras comunidades, os carismas pouco aparecem e dele quase não se fala, pois estavam integrados na vida e na convivência normal da comunidade. Na comunidade de Corinto, porém, havia um abuso. Alguns usavam o Dom das línguas como meio para se promover. Achavam que fosse um privilégio especial de Deus. Todos queriam falar em línguas e, por isso mesmo, as reuniões se tornavam barulhentas e confusas (1 Cor 14,4-12).

Paulo tenta colocar as coisas no lugar. Ele fala com uma fina ironia. Estabelece uma ordem de valores (1 Cor 12,27-30). O Dom mais importante é a caridade (1 Cor 12,31). Paulo é taxativo: falar em línguas quando não há ninguém que possa interpretar o sentido para o povo, é comportar-se “como um bárbaro” (1 Cor 14,11). É como soltar palavras ao vento (1 Cor 14,9). Nesse caso é melhor não falar. O próprio Paulo sabia falar em línguas “mais do que todos os outros” (1 Cor 14,18). Mas ele diz: “Prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência, para instruir também os outros, a dizer dez mil palavras em línguas” (1 Cor 14,19).

Importante para Paulo é que todos os dons sejam usados a serviço do bem comum e da edificação da comunidade (1 Cor 14,26), cuja característica e finalidade principal é a comunhão, o crescimento do todo como um corpo (1 Cor 12,12-30). Falar em línguas é um ato de louvor a Deus. É muito importante que a Comunidade se reúna para louvar a Deus (1Cor 14,26), mas Paulo pede que o louvor seja feito com inteligência e compreensão (1 Cor 14,13-15).

Na argumentação usada por Paulo aparecem e transparecem os seguintes critérios: 1. O critério da união e da comunhão dentro da comunidade, que não pode ser desfeita por um pretenso Dom do Espírito. 2. O critério da edificação: todos os dons são dados e devem servir para edificação e crescimento da comunidade. 3. O critério da hierarquia dos valores dos vários dons: em vista do bem da comunidade, alguns dons são mais importante que os outros. 4. O critério do bom senso e da argumentação normal de uma pessoa equilibrada. 5. A preocupação com a missão da comunidade e com o testemunho que ela deve dar aos que vem de fora. 6. O critério do amor, do bem-querer, da ajuda mútua, da atenção aos outros.

Não convém confundir o Dom das línguas com a fala em várias línguas no dia de Pentecostes (At 2,1-11). No dia de Pentecostes, todos entendiam tudo, sem que houvesse necessidade de um intérprete (At 2,11). O fenômeno das línguas no dia de Pentecostes significa que a confusão das línguas, provocada pelo pecado da Torre de Babel (Gn 11,7-9), começou a ser eliminada pela força do Evangelho.


 


        Conclusão
        O 4o nível

        A origem e o destino do rumo do Espírito


 

Nas afirmações do NT sobre a experiência do Espírito, além da verbalização e descrição (1o nível), da busca do sentido (2o nível) e do esforço de discernimento (3o nível), existe um quarto nível, em que transparece o esforço de explicitar melhor a origem ou a procedência do Espírito. É aqui que aparece a dimensão trinitária. Ela nasce da preocupação pastoral de sintonizar com o rumo do Espírito mantendo, de um lado, a unidade do Projeto de Deus, manifestado no AT, realizado em Jesus e continuado nas comunidades, e, de outro lado, a sua diversidade, manifestada na variedade dos dons e na pluralidade das comunidades. É sobretudo o Evangelho de João que mais aprofundou o mistério do Deus Trino para ajudar as comunidades a sintonizar com o rumo do Espírito.

Tudo isto é muito atual hoje. A palavra de Deus vale não só pela idéia que transmite, mas também pela força que comunica. Não só diz, mas também faz. O povo judeu, muito mais do que nós hoje, tinha sensibilidade para valorizar estes dois aspectos e mantê-los unidos. Na língua deles, dabar significa, ao mesmo tempo palavra e coisa, diz e faz, anuncia e traz, ensina e anima, ilumina e fortalece, luz e força, Verbo e Espírito. Estes dois aspectos não podem ser separados, pois ambos existem unidos na unidade de Deus. O Pai pronuncia sua palavra e coloca nela a força do seu Espírito. Em Jesus, o Verbo que se fez carne, repousa a plenitude do Espírito. Na prática pastoral, porém, estes dois aspectos estão separados. De um lado, os movimentos carismáticos; de outro lado, os movimentos de libertação. Os carismáticos têm muita oração, mas muitas vezes carecem de ação profética e de visão crítica a respeito da situação concreta do povo. Os movimentos de libertação, por sua vez, tem muita consciência crítica, mas, às vezes, carecem de perseverança e de fé, quando se trata de enfrentar situações humanas que, dentro da análise científica da realidade, em nada contribuem para a transformação da sociedade. Às vezes, eles têm uma certa dificuldade para perceber a utilidade de longas horas gastas em oração sem resultado imediato.

A prática dos primeiros cristãos mostra que é possível chegar a uma obediência que faça crescer a liberdade do Espírito; cultivar uma unidade que faça aparecer a variedade dos dons do Espírito; afirmar com os judeus a unidade de Deus de tal maneira que apareça a sua dimensão trinitária como manifestação da unidade; viver a novidade do Espírito de tal maneira que recupere e atualize todo o passado já vivido; dar rumo à liberdade a partir da prática de Jesus junto aos pobres da Galiléia; manter a unidade entre o Projeto de Deus do AT e a vida das comunidades, entre liberdade e carisma de um lado e organização e serviço do outro, entre o Cristo da fé e o Jesus da história.

No dia de Pentecostes, o Espírito se manifestou sob a forma de línguas de fogo. Fogo é para esquentar, clarear e queimar. Esquenta o coração, clareia a mente e queima os desvios. Língua é para anunciar e dialogar e, assim, enriquecer-se mutuamente, aprendendo das divergências.


 

Frei Carlos Mesters