O Feminino em Deus e a feminilidade/maternidade do Espírito Santo



Claudinei Jair Lopes


Atualmente está muito presente na teologia o tema ou a questão da feminilidade em Deus e também a feminilidade de Deus. Esta questão vem a tona influenciada por vários fatores (sociológico, político, econômico: com a emergência da mulher nestas áreas; psicológico: a época atual acentua ou tem uma sensibilidade maior para valores ditos femininos [emergência do subjetivo, do sujeito feminino, psicologia....], teológico-eclesial: emergência das teologias do feminino e da teologia feminista). Embora a questão da feminilidade de e em Deus e a feminilidade/maternidade do Espírito Santo não seja nova percebe-se atualmente uma maior sensibilidade teológica para com o feminino em Deus e o feminino de Deus. É aqui que se insere a questão a que nos propomos neste excurso: aprofundar como este feminino de Deus e em Deus está associado intimamente com a experiência e a ação do Espírito Santo. É na pessoa do Espírito Santo que a sensibilidade teológica vê e reconhece de modo mais claro a feminilidade em Deus e de Deus. Neste sentido nos propomos aqui, em linhas gerais e sintéticas, ver o que a teologia do passado e atual afirma sobre a questão específica da feminilidade em Deus e com acento maior a feminilidade/maternidade do Espírito Santo.


a) Feminilidade em Deus


A questão da feminilidade em Deus, segundo Y. Congar, pode ser assim proposta: “se Deus criou o homem à sua imagem, a imagem de Deus os criou: varão e mulher os criou” (Gn 1,27), em Deus deve dar-se, sob uma forma transcendente, algo que responda a masculinidade e a feminilidade humanas. Vejamos alguns testemunhos bíblicos e da tradição cristã.


1. Testemunhos Bíblicos da Feminilidade em e de Deus

De fato a revelação bíblica nos apresenta sinais femininos no seu vocabulário empregado.Temos em primeiro lugar o tema da Ternura. Se bem que esta não é exclusivamente feminina, já que existe uma ternura do pai, de Deus como Pai (Sl 103,13; Is 63,16) e que a ternura é um atributo de Javé (Ex 34,6; Sl 25,6; 116,3) se apresenta, contudo, como feminina em admiráveis textos dos profetas e na imagem inconcreta que o próprio termo expressa. Vejamos os textos (Os 11,1-4.8; Jr 31,20; Is 49,14-15; 66,13).

O termo usado para significar “ternura” é o mesmo que serve para designar “entranhas” (rahamim) plural de rahem, o ventre materno, a matriz. A ternura é feminina; Deus tem disposições e amor de Mãe. Jesus esteve revestido de idênticos sentimentos: os sinóticos o apresentam frequentemente comovido em suas entranhas (Mt 9,36; 20,34; Mc 1,41; 6,34; Lc 7,13). As qualidades, atividades e comportamentos femininos – alimentar com leite, ternura, doçura, amor – foram celebrados em Cristo, dando lugar a uma devoção a Cristo, nossa Mãe e, sobretudo foram propostos como ideal do superior monástico: o abade, pai, devia ser maternal. O tema foi seguido com detalhes pelos grandes abades e monges cistercienses do século XII.

A sabedoria, como a shekinah, presença ou habitação, é um modo de ser ou de atuar de Deus, especialmente em referência ao mundo, aos homens e a Israel. É uma realidade feminina. É buscada e amada como a uma mulher (Eclo 14,22ss); é uma esposa e mãe (Eclo 14,26ss; 15,2ss). É fonte de fecundidade e intimidade. No NT e na tradição teológica, a sabedoria é apropriada ao Verbo, a Cristo. Mas no AT é identificada com o Espírito (Sb 9,17) e muitos Padres, anteriores a Nicéia consideravam que representava o Espírito Santo. Recentemente, o professor G. Quispel propos uma nova interpretação do famoso texto sobre a mulher de Ap 12: seria o Espírito Santo acompanhado com a comunidade cristã que foi perseguida e se refugiou em Pella, como a shekinah acompanhou o povo de Deus em seu exílio. O nascimento do filho varão equivaleria ao batismo de Jesus, no qual o Evangelho dos Nazarenos apresenta o Espírito genitrix.


2. Alguns testemunhos da Tradição e da História da Igreja sobre a Feminilidade divina

Não apenas da Sagrada Escritura nos é permitido afirmar que a Revelação de Deus apresenta traços femininos, mas também da Tradição e da História da Igreja. Vejamos alguns destes testemunhos históricos que poderão ajudar-nos no sentido de mostrar-nos como, através dos tempos, homens e mulheres de diversas épocas e procedências experimentaram a força da Revelação divina que lhes mostrou sua face feminina.

O primeiro texto a que recorremos é um ágrafon do Evangelho apócrifo aos Hebreus. É aí colocada na boca do próprio Jesus uma referência ao Espírito Santo no feminino, e mais, como sua Mãe: “No mesmo momento minha mãe, o Espírito Santo, me agarrou por um de meus cabelos e me conduziu sobre a grande montanha do Tabor”. O autor apócrifo expressa aí uma característica na concepção de Deus que certamente provém de sua experiência de fé ou da experiência de fé de sua comunidade. O segundo testemunho vem de Clemente de Alexandria. Escrevendo no Egito por volta do ano 180, Clemente, em um texto de rara beleza, caracteriza Deus em termos ao mesmo tempo femininos e masculinos: “A Palavra é tudo para a criança, ao mesmo tempo pai e mãe, mestra e ama. A nutrição é o leite do Pai... e a Palavra sozinha nos supre a nós, crianças, com o leite do amor, e somente aqueles que mamam deste seio são verdadeiramente felizes. Por esta razão, buscar é chamado mamar; a estes infantes que buscam a Palavra, os seios amorosos do Pai fornecem leite”.

E, descrevendo a natureza humana, insiste: “...Homens e mulheres partilham igualmente a perfeição e estão aptos para receber a mesma instrução e a mesma disciplina. Pois o nome `humanidade` é comum a ambos, homens e mulheres, e, para nós, ‘em Cristo não há macho nem fêmea’...”.

Bastante posterior é o terceiro testemunho que aqui traremos: Juliana de Norwich, mística inglesa que viveu na última metade do século XIV e terminou seus dias como eremita. Caso raro entre as mulheres de sua época, Juliana teve apurada educação e atingiu a meta máxima da educação medieval, dominando gramática latina, retórica e lógica, estando capacitada, no final de sua vida, a aprender e ensinar teologia, o cume da Escolástica. Recebe suas experiências místicas de três maneiras básicas: através de visões corpóreas, através da visão espiritual e através de palavras silenciosamente formadas em seu entendimento. Sua visão de Deus integra a face masculina e feminina da divindade: “E então eu vi que Deus se alegra de ser nosso Pai, e Deus se alegra de ser nossa Mãe, e Deus se alegra de ser nosso verdadeiro esposo, e de que nossa alma seja sua bem-amada esposa”. A nota mais característica da mística de Juliana é justamente essa da maternidade divina. Afirmando que a maternidade é parte da natureza de Deus, faz essa maternidade remontar ao próprio Jesus, dizendo que, quando Cristo se dispôs a fazer a vontade do Pai, tornou-se mãe de nossa alma, tomando-a dentro de si. “Nosso salvador é nossa verdadeira Mãe, na qual somos permanentemente nascidos e para fora do qual nunca sairemos”. E acrescenta: “...todas as adoráveis obras e todos os amorosos ofícios da bem-amada maternidade são apropriados à Segunda Pessoa, pois nela temos este bom desejo” (de que parte de nós nunca consentirá em pecar).

Jesus, no entender de Juliana, carrega-nos para sempre dentro de si; sua paixão e morte são suas dores de parto através das quais somos libertados para a bênção. Mas ele continua a trabalhar em nós; ele necessita nutrir-nos e o faz com seu próprio corpo, sacramentalmente e no ensinamento da Igreja. A imagem da mãe que nutre o filho com a substância do seu próprio corpo é, pois, aplicada por Juliana, com extrema delicadeza e respeito no mistério da Eucaristia. Apesar da grande originalidade de sua experiência mística, Juliana nunca teve maiores problemas dentro da Igreja. Por outro lado, tampouco lhe foi dada maior importância. Morreu numa anônima vida de oração, ao mesmo tempo que ajudava espiritualmente os visitantes que a procuravam. Seu testemunho chega até nós hoje através de uma edição de seus escritos e de alguns artigos sobre ela que nos permitem, felizmente, ter acesso a uma tão original experiência de Deus.


Concluindo esta parte vemos que a Revelação do feminino em Deus, desde a Sagrada Escritura e ao longo da História, acontece em ritmos e em dimensões trinitárias. Na Bíblia, as “rahamim” de Javé são a outra face de seu amor que é paterno enquanto força e fidelidade e materno enquanto proteção, desvelo, compaixão e carinho; a Ruach divina é aplicável ao Espírito que parteja a criação e dá vida e movimento a todas as coisas; a Sabedoria mediação criadora de Deus, é depois, no Cristianismo, assumida pelo Logos, palavra desde cedo identificada ao Filho. Temos assim, nestes três termos bíblicos, três núcleos semânticos reveladores dos traços femininos do divino aplicáveis a cada uma das pessoas divinas que consumam seu mistério de amor no ‘ágape’ que desce do alto e faz acontecer a fraternidade nas relações humanas.

Da mesma forma acontece com os testemunhos históricos. Três testemunhos onde, curiosamente, os traços femininos de Deus são aplicados alternadamente ora a uma ora a outra das pessoas divinas. Ao Espírito segundo o Evangelho Apócrifo aos Hebreus; ao Pai e ao Filho em Clemente de Alexandria; ao Filho encarnado, Jesus Cristo, em Juliana de Norwich. Isto permite afirmar que esses traços femininos da divindade que adoramos não se aplicam, obrigatoriamente , a uma só das pessoas divinas, mas perpassam todas elas, uma vez que são uma linha de realidade presente no coração e no movimento do mistério trinitário. Podemos pois, encontrar esses traços do feminino tanto no Pai, como no Filho, como no Espírito Santo, o que nos possibilita confessar que o Deus em quem cremos e que se revelou em Jesus Cristo como comunidade de amor explicitou a sua revelação salvadora em termos que integram e harmonizam o masculino e o feminino.


b) O Espírito Santo como expressão do Feminino de e em Deus


Levando em conta tudo o que a Sagrada Escritura e a história e a tradição cristãs nos forneceram como elementos sobre a Revelação do feminino em Deus queremos agora voltar nosso olhar para a pessoa do Espírito Santo.

Atendendo-se ao que o NT diz e valorizando-se o que certa tradição teológica afirma, pode-se discernir no Espírito Santo algumas dimensões femininas, especialmente maternais. Em primeiro lugar importa constatar que em hebraico e siríaco Espírito é uma palavra feminina. O Espírito sempre tem a ver com processos ligados à vida e à proteção da vida. Em são João, na linguagem de Jesus, o Espírito é apresentado de tal forma que nos recorda traços tipicamente (embora não exclusivamente) femininos. Ele nos consola como Paráclito, exorta e ensina (Jo 14,26; 16,13), não nos deixa ficar órfãos (Jo 14,18). Segundo Paulo o Espírito assume a função da mãe e nos ensina a balbuciar o nome verdadeiro de Deus Abba (Rm 8,15); Ele nos ensina também o nome secreto de Jesus, que é Senhor (1Cor 12,3); Ele nos ensina como rezar e pedir as coisas verdadeiras (Rm 8,26).

No AT o Espírito assume funções femininas. Segundo certas interpretações, o pairar do Espírito sobre o caos primitivo (Gn 1,2) significaria o ato de chocar do Espírito, fecundando toda a criação e assim permitindo que dela surgisse todo tipo de vida. A Sabedoria, amada e buscada como uma mulher (Eclo 14,22ss) e apresentada como esposa e mãe (Eclo 14,26ss; 15,2s), é às vezes identificada com o Espírito (Sb 9,17), fato comum nos Padres da Igreja antiga. No ambiente cultural sírio e judaico, porque aí Espírito é feminino, não é raro encontrar-se a compreensão do Espírito como Mãe.

Em torno do judeu-cristianismo encontramos o Evangelho segundo os Hebreus ou o Evangelho dos Nazarenos, mencionado por Clemente de Alexandria, por Orígines e por São Jerônimo. Nas citações de São Jerônimo, se trata da vinda do Espírito sobre Jesus no momento do Batismo com a frase: “Tu és meu filho predileto”.

Nas Odes de Salomão, escrito das origens do Cristianismo sírio, a pomba do batismo de Jesus é comparada com a mãe de Cristo que dá o leite com as mamas de Deus. Também naqueles Padres que viam na família humana uma analogia para o mistério trinitário, encontramos expressões femininas para o Espírito Santo. Ele aparece, analogicamente, como a Mãe eterna, que depois, na concepção virginal de Jesus, por obra do Espírito, se torna, de certa forma sua mãe divina, sem com isso conflitar com Maria que é, a justo título a Teotócos, a Mãe de Deus encarnado.

Num belo texto, Macário, teólogo sírio (+334), diz: “O Espírito é nossa Mãe porque o Paráclito, o Consolador, esta pronto a nos consolar como uma mãe ao seu filho (Is 61,13) e porque os fiéis são renascidos do Espírito e são assim os filhos da Mãe misteriosa, o Espírito (Jo 3,3-5)”. E ainda R. Murray cita estas palavras das homilias de Macário: os homens, depois da queda “não contemplam mais o verdadeiro Pai Celeste ou a boa e doce Mãe, a graça do Espírito, nem ao suave Irmão, o Senhor”.

No quadro do ebionismo judeu-cristão, Elxaï vê em uma visão, um anjo imenso que lhe dá um livro: “Estava acompanhado por um ser feminino cujas dimensões eram igualmente as que temos dito. O ser masculino era o Filho de Deus e o ser feminino se chamava Espírito Santo”.

A liturgia síria compara o Espírito com uma Mãe misericordiosa; e Afraates, sírio que escreve em persa entre os anos de 336-345, diz que “o homem que não se casa respeita a Deus seu pai e ao Espírito Santo, sua mãe; e não tem outro amor”.

Metódio de Filipos (+312): Este que segundo autores teve uma tradição antiga comum com os gnósticos, interpretava a história da formação de Eva referindo-se a Cristo e a Igreja. Deus criou Eva da Costela de Adão e a deu como esposa. Do peito ou da costela do Logos saiu, na cruz, o Espírito da Verdade (Jo 16,13), o Espírito septiforme (Is 11,2) para formar a Igreja, sua esposa. Esta Igreja é a vida e a unidade do Espírito, especialmente nas almas purificadas, as virgens, que são esposas por excelência. Cristo, o novo Adão e a Igreja-Espírito são o Adão e Eva espirituais. Existe uma continuidade, uma identidade tipológica real. O Espírito-Igreja é Eva, é Esposa.

M.J. Scheeben (em sua obra Os mistérios publicada em 1865). Este autor quer fundamentar uma relação entre o Espírito e a mulher. Conhecedor dos padres gregos, assinala, primeiro que o homem, o filho vem em terceiro lugar, como fruto da união do pai e da mãe; em Deus, o Filho procede como segunda pessoa, como fruto imediato e exclusivo do Pai. Na criatura reina uma dualidade, uma distância entre o ato e a potência, o princípio ativo e o princípio passivo. Porém Deus é ato puro, Pai fecundo. Scheeben coloca então o Espírito Santo entre o Pai e o Filho como laço de amor entre ambos, como expressão da unidade da natureza entre eles (a “manifestação” de Paul Evdokimov, ou melhor ainda, a idéia de Gregório de Chipre e de Gregório Palamas), porque ele é fruto do amor deles. Desta maneira Scheeben encontra uma relação entre a processão da Terceira Pessoa e a criação da mulher, Eva. Neste momento cita Metódio e apresenta, com este a seguinte relação: Adão = Cristo; Eva = Igreja-Espírito. Igualmente une, na Dogmática, a realidade cristológica eclesial ao relato das origens, costume já antigo e que corresponde às citações que faz são Jerônimo do Evangelho segundo os Hebreus. Relaciona a processão do Verbo-Filho com a criação de Adão e a processão do Espírito com a criação de Eva.

H. Doms (obra em 1937: Du sens de la fin du mariage [tradução]): Em um ensaio original este autor se baseia em Scheeben para estabelecer a diferença e a relação entre os sexos no mistério intradivino.

Constata-se aqui que a dualidade e unidade complementaria entre Cristo e o Espírito Santo, segundo Congar, se refletem na dualidade e unidade sinfônica e dinâmica do homem e da mulher na sociedade e na Igreja. De maneira especial na Igreja, mas também na sociedade, um monoteísmo pretrinitário ou um “cristomonismo”, isto é um certo esquecimento do Espírito Santo e da Pneumatologia, tem permitido ou produzido a instauração de um tipo patriarcal e um domínio do varão. Diante disto tem a Igreja uma dupla tarefa: por um lado, fazer-se mais plenamente masculina e feminina e, por outro, salvaguardar os valores femininos sem manter as mulheres sob o domínio de valores elegantes e passivos, dos quais elas querem sair para serem tratadas, sempre e autenticamente como pessoas.

Precisamente aqui é que surgem as teologias feministas que procuram de maneira mais ou menos aberta desenvolver esta teologia sob o signo do Espírito Santo. Citamos aqui dois casos que ilustram o tema que estamos tratando:

O primeiro é da madre Maura Böckeler (obra publicada em alemão em 1941) que desenvolve uma visão de toda a economia da graça, ilustrando sua reflexão com citações dos santos padres, da liturgia e de Santa Hildegarda. Segundo esta autora a mulher é o grande símbolo de resposta de amor dada a Deus; resposta que em Deus mesmo é o Espírito Santo.

O segundo testemunho é de Willi Moll (obra publicada em1964): Willi Moll propõe fundamentar o caráter próprio da pessoa masculina na paternidade da primeira pessoa divina. O da mulher se relacionaria com o Espírito Santo que desenvolve sua propriedade de ser o Amor nas três situações ou tarefas da mulher considerada como virgem (tarefa de acolhida, recepção), esposa (função de união, o Espírito é o grande “e” de Deus, aquele que une), e mãe (a tarefa de comunicar a vida).

É inegável, por outra parte, uma relação especial do Espírito com Maria (cf. Lc 1,35) como iremos ver posteriormente. Ele detém uma missão especial com referência à irrupção da vida. Na primeira criação, gesta o mundo (Gn 1,2), na nova criação é responsável pela concepção de Jesus (Mt 1,18), suscita a missão messiânica de Jesus (a figura feminina da pomba), seu novo nascimento pela ressurreição (Rm 1,4; cf. At 13,33; Fl 2,6-11; Hb 5,5). No corpo de Cristo que é a comunidade eclesial o Espírito exerce certa maternidade, concebendo novos irmãos e irmãs de Jesus, filhos e filhas no Filho, suscitando serviços e animando toda a vida da graça. Dizia o Pe. A. Lémonnyer (em sua obra Notre vie divine publicada em Paris em 1936) : “É a Pessoa divina (do Espírito Santo) que nos é ‘dada’ de maneira especial. Ele é o Dom de Deus por excelência e leva este nome. Na Trindade é o amor, que é também um de seus nomes próprios. Ora, tais qualificativos convêm antes à mãe que a qualquer outra pessoa e, de certa forma, a definem. Na terra, nenhuma outra pessoa nos foi ‘dada’ como nossa mãe; ela personifica o amor naquilo que ele tem de mais desinteressado, de mais generoso, de mais doado”.

Por fim é preciso aqui dizer que Deus está para além dos sexos; com razão s. Gregório Nazianzeno, sublinhava que Deus não é nem masculino nem feminino, entretanto, tanto o masculino quanto o feminino encontram em Deus seu protótipo; as raízes destas determinações fundamentais do ser humano estão no próprio mistério de Deus Trinitário; cada Pessoa, a seu modo, encerra a fonte destes valores axiais do ser humano, varão e mulher. Com referência ao Espírito Santo devemos pensar como s. Jerônimo que afirmou: “o Espírito é feminino em hebreu, neutro em grego e masculino em latim”.



c) Maria e o Espírito Santo


Segundo Congar este tema é importantíssimo. Convêm tomar nota da crítica que nos fazem, reconhecer o que pode haver de justo nela, mas ser conscientes ao mesmo tempo da profundidade do laço existente entre a virgem Maria e o Espírito Santo, e em conseqüência, de uma certa comunidade de função na disparidade absoluta de condições.

A crítica é grave. Vem especialmente dos protestantes e pode ser resumida da seguinte maneira: atribuímos a Maria o que compete ao Espírito Santo; em casos extremos fazemos que ela ocupe o lugar do Paráclito. Com efeito lhe atribuímos os títulos de consoladora, advogada, defensora dos fiéis ante Cristo, que será o juiz insubornável. Ela exerce uma maternidade tal que, graças a ela, não somos órfãos; revela Jesus, que por sua vez, revela o Pai. Ela forma Jesus em nós, função atribuída ao Espírito Santo... Alguns a chamam “alma da Igreja”, título atribuído, igualmente ao Espírito Santo. Muitas almas espirituais falam de uma presença de Maria nelas, de uma guia de sua vida por Maria; de uma experiência de tudo isto em grau comparável ao que pode alcançar-se com a presença e inspiração do Espírito Santo. Não nos é estranho se lemos em Elsie Gibson: “quando comecei a estudar a teologia católica, encontrava Maria cada vez que esperava encontrar um tratado sobre o Espírito Santo; se atribui a Maria o que, unanimemente, nós [protestantes] consideramos como a ação própria do Espírito Santo”. Efetivamente, como não reagir desta maneira ao ler este texto de são Bernardino de Sena, tomado em parte por Leão XIII, que escrevia pouco tempo depois uma encíclica sobre o Espírito Santo: “Toda graça que é comunicada neste mundo chega por um tríplice movimento. Porque é dispensada segundo uma ordem perfeitíssima: Deus em Cristo, Cristo na Virgem, a Virgem em nós”. Bernardino acrescenta que Maria dispõe “de uma determinada jurisdição ou autoridade sobre toda processão temporal do Espírito Santo, até o ponto que nenhuma criatura tem recebido de Deus graça alguma de virtude senão em razão de uma disposição da Virgem Maria mesma”. Evidentemente, isto é, segundo Congar, inaceitável.

Porém não podemos nos limitar a rechaçar o inaceitável. As relações entre Maria, mãe de Deus e o Espírito Santo são profundas; derivam do mistério da salvação, do mistério cristão. Acaso não se encontra aí a razão de que a liturgia latina uniu a oração do Espírito Santo cada vez que recordava a virgem Maria, assim como une a recordação de São Paulo com a de São Pedro? Determinadas expressões de autores espirituais católicos são criticáveis porque atribuem a Maria uma eficiência imediata de graça e de vida espiritual. Em casos extremos, atribuem a Maria o que é obra inalienável de Deus e do Espírito Santo.

Porém a função de Maria se situa na do Espírito Santo que a fez mãe do Verbo encarnado, que é o princípio de toda santidade e da comunhão dos santos. No “mistério cristão” Maria possui de maneira supereminente a posição de modelo da Igreja de intercessora universal. É, nela, a obra do Espírito Santo. Os cristãos desejam configurar suas vidas tendo presente a imagem daquela que recebeu a Cristo e deu-O ao mundo e dirigem suas orações a ela para que se realize esta imitação. Eles esperam isto de Cristo mesmo, que age por meio do seu Espírito, mas com o sentimento de que Maria coopera na ação, a título de modelo e de intercessão. Daí esta experiência mariana que envolve sua experiência da graça e do Espírito com um realismo concreto e acolhedor. Porque a comunhão de Cristo é acompanhada de uma recordação mariana; o mistério cristão permaneceria incompleto se faltasse a função de Maria. Maria, a primeira agraciada, está associada à ação soberana do Espírito. Têm razão os protestantes quando rejeitam uma atribuição a Maria do que pertence somente a Deus; mas cometeriam um equívoco fechando-se ao que os católicos e ortodoxos testemunham como discreta e justificada influência mariana em suas vidas em Cristo.

Percebe-se que na devoção católica moderna, a função maternal do Espírito Santo tem sido suplantada freqüentemente pela Virgem Maria. Temos, segundo Congar, aí um valor talvez ambíguo, mas que forma parte das profundidades do mistério cristão.


Bibliografia

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